O câncer não escolhe sexo.

Perspectivas para as neoplasias do homem e da mulher.

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Veja o resumo dos debates!

Nina Melo, coordenadora de pesquisa da Abrale e do Observatório de Oncologia deu início às apresentações, com o “Panorama da Atenção ao Câncer de Ovário no SUS”.

Neste estudo foi feita a análise dos dados de acordo com os Registros Hospitalares de Câncer (RHC), do Instituto Nacional do Câncer (INCA), Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA) e Sistema de Informações Hospitalares (SIH) entre os anos de 2014 e 2019.

Dentre os dados encontrados está que 38% das pacientes não possuem informação sobre o estadiamento da doença no momento do diagnóstico e que 68% foram diagnosticadas tardiamente.

De acordo com análise dos dados do RHC, o diagnóstico tardio prevalece em todos estados brasileiros, com exceção do estado do Amapá. O tempo médio entre a primeira consulta com o especialista da atenção primária e confirmação do câncer de ovário, foi de 45 dias. 31,2% das pacientes receberam o diagnóstico após 30 dias. Já o tempo entre diagnóstico e início do tratamento é de 44 dias, em média. Apesar disso, 19,2% das pacientes iniciaram a terapêutica após 60 dias.

“O câncer de ovário é silencioso e demora a ser diagnosticado. Seu diagnóstico, na maior parte dos casos, acontece em estágio avançado (III e IV) e ainda há um retardamento para início do tratamento, o que é bastante grave”, disse Nina.

Ela ainda complementou alertando que é preciso disseminar esses dados. “Precisamos divulgá-los para os gestores de saúde e para quem tem o poder na mão de mudar essa realidade e trazer as melhorias possíveis”.

Nelson Francisco Corrêa, pesquisador do ICESP e pesquisador voluntário do Observatório de Oncologia, apresentou o segundo estudo da noite, intitulado “Estimativas da Incidência do Câncer de Mama em 2020 dos Municípios Brasileiros”.

No Brasil, o INCA estimou para 2020 mais de 65 mil novos casos da doença. Contudo, apesar de sua relevância epidemiológica, há poucos dados sobre a incidência esperada em cada um dos mais que 5.500 municípios do país.

Cerca de 86% dos municípios brasileiros apresentaram estimativa de novos casos/ano inferior a 10 casos e apenas 2% (95 municípios) apresentaram mais de 100 casos ao ano.  30% dos municípios apresentaram estimativa da taxa de incidência ajustada superior a 44 novos casos por 100 mil mulheres – a taxa nacional estimada pelo INCA.

Dentre os 30% dos municípios com a estimativa da taxa de incidência ajustada superior a nacional, 72% estão na região Sul e Sudeste. Por outro lado, dentre os 30% dos municípios com as menores da taxa de incidência ajustada, 60% estão localizados nas regiões Norte e Nordeste

“Há uma grande concentração do número de casos em poucos municípios e poucos casos na maioria dos locais. Cerca de 2% dos municípios apresentaram mais de 100 casos por ano e 86%, 10 casos ou menos. Os locais com maior incidência são, sobretudo, capitais e municípios mais populosos do Sudeste e Sul. Apesar disso, não significa que as mulheres são melhores atendidas nessas regiões. Enquanto nas regiões Sul e Sudeste é preciso ter uma atenção maior ao rastreamento da doença, nas regiões Norte e Nordeste, além da prevenção e controle do câncer de mama, é preciso ter uma melhoria no atendimento”, considerou o pesquisador.

Ivan Kühne, desenvolvedor web full stack, mestre em Modelagem Matemática, apresentou o Monitor Rosa, um dashboard criado por ele e por um grupo de especialistas em dados e saúde, desenvolvido como resultado do hackathon “Datacare: maratona contra o câncer de mama”, proposto pelo Hospital Israelita Albert Einstein e Observatório de Oncologia em 2020.

O projeto foi selecionado pelo Comitê Organizador da Abrale para construção conjunta de uma plataforma, que objetiva monitorar e compartilhar índices e indicadores associados ao câncer de mama.

“A importância desse dashboard se dá uma vez que, ter os dados disponibilizados de forma visual, ajuda no processo de entendimento. Não basta ter todos os números, é preciso disponibilizá-los de forma eficiente”, disse.

Heber Scachetti, analista de dados no iFood e mestre em Ciência da Computação, também criador do Monitor Rosa, explicou que a plataforma “parte da coleta de dados, seja do SUS ou do INCA, transforma em resultado, por meio de inteligência artificial e entrega relatórios, com diferentes focos, para auxiliar na tomada de decisão”.

Os médicos Luiz Antonio Santini, consultor em planejamento e gestão de saúde, e Sandro Martins, oncologista pesquisador no Núcleo de Epidemiologia e Vigilância em Saúde na Fiocruz/DF, foram convidados para realizarem o overviewed das apresentações.

“Há alguns anos, quando se falava em rastreamento e detecção precoce do câncer, era algo quase teórico, porque se visualizava muito pouco o que de fato estava acontecendo no dia-a-dia das pessoas. Então, muitas vezes, a falta desse conhecimento específico poderia levar a um certo desperdício de recurso, uma vez que não se tinha a expressão correta e se dotava ou deixava de dotar o município de recurso. Para os gestores, os dados são fundamentais, pois ajudam a identificar e definir quais tipos de estratégias usar”, pontuou o Dr. Santini.

O Dr. Martins apontou que os dados oferecidos atualmente para serem trabalhados são de má qualidade, pois ainda há um déficit de registros em bases qualidade da assistência oncológica.

“Hoje, é impensável, com a quantidade de ferramentas disponíveis e com facilidade de uso e implementação delas, que você não tenha um registro mais acurado de dados que são considerados estratégicos para a gestão. Do contrário, nós trabalhamos com dados equivocados”, ele falou.

No último dia do evento, demos início com o Atlas do Câncer de Pulmão, apresentado por Denise Martins, gerente do departamento de comunicação e pesquisa da Abrale.

O câncer de pulmão é o segundo mais comum no mundo, ocupando a primeira posição entre os homens e terceira posição entre as mulheres. No Brasil, é o quarto tipo mais incidente (sem contar o câncer de pele não melanoma), ocupando a terceira posição entre os homens e a quarta posição entre as mulheres.

De acordo com a pesquisa, no período entre 2014 e 2018, 56.534 pacientes foram diagnosticados com câncer de pulmão e atendidos em estabelecimentos de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) que compõem o Registro Hospitalar de Câncer (RHC) do INCA. Destes, 32.157 (57%) são do sexo masculino, 51.803 (92%) têm mais de 50 anos de idade e, entre os registros preenchidos, 24.888 (81%) consomem ou já foram consumidores de tabaco.

31% dos casos confirmados não possui informação sobre estadiamento da doença. Entre os pacientes com informação preenchida, 86% foram diagnosticados em estágios avançados (III e IV).

Ao avaliar o tempo, em dias, entre consulta com o especialista e recebimento do diagnóstico, nota-se que 51% dos pacientes não têm essa informação preenchida. Segundo os dados preenchidos, o tempo médio foi de 33 dias e, dentre estes, 31% tiveram a confirmação após 30 dias.

Ao analisar o tempo entre diagnóstico e início do tratamento oncológico, em 27% dos casos não havia o registro dessa informação. Dentre os pacientes com registro da informação, notou-se uma média de 67 dias, sendo que 34% deles iniciaram o tratamento após 60 dias.

“O câncer de pulmão é um desafio importante para a saúde pública e é a principal causa de morte por câncer, no Brasil. É uma doença de difícil rastreio, os sintomas costumam acontecer quando a doença já está em estadiamentos avançado. Analisar os dados do câncer de pulmão no país, e assim ter uma dimensão da doença, também é desafiador. Isso porque há uma grande dificuldade em obter estas informações. Precisamos avançar no cenário político, com foco em saúde, para que os pacientes tenham um melhor acesso ao diagnóstico e tratamento. Mas os registros de câncer também precisam ser melhor trabalhados, justamente porque é com base neles que conseguiremos mudar os rumos da saúde”, comentou Denise.

André Marques, sócio-diretor da Consultoria ATSaúde e gerente de dados e Real World Evidence no Instituto Oncoguia, apresentou o Radar do Câncer, com foco no estudo sobre câncer de próstata.

O câncer de próstata é o de maior incidência em homens (excetuando pele não-melanoma). Segundo estatísticas do INCA, cerca de 65.840 novos casos serão diagnosticados no Brasil em cada ano do triênio 2020-2022.

A pesquisa traz achados importantes. No ano de 2020, por conta da pandemia de COVID-19, houve uma queda de 29% na realização do exame de PSA (Dosagem de Antígeno Prostático Específico), no sistema público de saúde. Em 2020 foram realizados menos de 66% do exame, quando comparado com 2019.

Quando fala-se em estadiamentos, observa-se uma disparidade entre os estados brasileiros. Em Roraima, por exemplo, 77% dos homens são diagnosticados em estadiamentos avançados (III e IV). Já em Minas Gerais, 42% dos casos recebem o diagnóstico tardiamente. O mesmo acontece para o início do tratamento – no Amapá, 71% dos homens são atendidos após 60 dias de receberem o resultado dos exames, enquanto que no Mato Grosso do Sul, este número cai para 47%.

O levantamento também mostra um recorte desta neoplasia por cor e raça. Os homens brancos são os que mais apresentam o câncer de próstata, seguido pelos pardos, negros e indígenas.

“O Radar do Câncer, feito em parceria com o Instituto Oncoguia, têm por objetivo facilitar o acesso da população aos dados públicos. Dessa forma, buscamos transparência na gestão, políticas mais efetivas e o aprimoramento na qualidade dos dados governamentais, porque hoje esta não é uma realidade. Os dados nos ajudam a identificar onde os homens estão chegando. Mas não mostram onde não estão chegando. No DATASUS não conseguimos identificar o exame de toque, que é o principal para o diagnóstico de câncer de próstata. É preciso melhorar”.

Fernanda Mussolino, especialista em real world evidence na Moka Info e membro do GT de Dados do Movimento TJCC, falou sobre as diferenças entre homens e mulheres, quando o tema é saúde.

De acordo com um levantamento feito pelo Moka Info, em nossa população, quanto mais avançada a faixa etária, maior a predominância de mulheres. Em 2020, por exemplo, na faixa etária entre 60 a 69 anos, o número de mulheres é de 56%, enquanto de homens 44%. Já na faixa etária acima dos 80 anos, o número de mulheres é de 63%, contra 37% de homens.

Embora 51% da população brasileira sejam mulheres, elas realizaram 64% das consultas médicas na atenção básica em 2020. Já na população masculina, que representa 49% da população, apenas 36% dos homens realizaram consultas na atenção básica. Houve uma queda de 34% no volume total de consultas, quando comparadas ao ano de 2019. Mas este dado não altera a proporção de consultas entre homens e mulheres.

Nas faixas etárias de 20 a 49 anos é onde estão as diferenças significativas entre os gêneros. Enquanto 69% das mulheres estiveram em consultas médicas na atenção básica, apenas 31% dos homens nesta faixa etária procuram pelo serviço.

Já nas faixas etárias mais extremas, como de 0 a 9 anos e 80 ou mais anos, o percentual de homens realizando consultas em atenção especializada é superior à representatividade de homens dessas faixas etárias na população.

Em torno de 7% das consultas da atenção especializada foram com oncologistas clínicos, sendo o percentual de mulheres 61% e, dos homens, 39%.

“De um modo geral, as mulheres realizam mais exames. Mas na idade mais avançada, observamos que os homens realizam mais consultas na atenção especializada. E isso demonstra que não há uma relação com a prevenção do câncer, mas talvez com a questão dos sintomas de uma doença. Hoje em dia a diferença entre os homens e mulheres têm sido muito discutida. E os dados realmente mostram que há um padrão de diferentes de comportamentos, na saúde, entre eles. É claro que é preciso olhar mais a fundo, para sabermos o porquê isso acontece, onde isso acontece mais. Porém, um olhar mais macro nos faz entender que é possível causar um impacto na saúde e nos tratamentos, já que muitos homens não buscam os serviços médicos para fazer os exames preventivos”, pontuou.

Dr. Fernando Maluf, oncologista e fundador do Instituto Vencer o Câncer e Dr. Alfredo Scaff, epidemiologista e consultor da Fundação do Câncer, foram os especialistas convidados para comentarem os estudos apresentados.

“Nós só conseguimos traçar um real cenário, na saúde de uma forma geral, com dados. São dados que, intuitivamente, já sabíamos, outros que não. Mas com eles conseguimos entender as possibilidades de avanços na área. As campanhas anti-tabaco, com aumento de impostos, me trazem muito orgulho. E precisamos, cada vez mais, focar nelas. Sobre o câncer de próstata, tem uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia, que mostra que os homens negros, tratados no SUS, têm de 3 a 4 vezes mais chances de receberem o diagnóstico com doença metástica, do que os homens caucasianos, e que têm um plano de saúde. Então temos duas doenças – a biológica e a do sistema. Mas entendo que temos possibilidades importantes de melhorias”, falou o Dr. Maluf.

De acordo com o Dr. Scaff, o Fórum Big Data é fundamental para destacarmos a importância dos dados.

“Nossas bases de dados, de fato, têm lacunas. Não só aqui no Brasil, como em outros países do mundo. Mas somos um país com 200 milhões de habitantes, então temos que construir estratégias e ter muita clareza com o que queremos desta base. Os registros de câncer de base populacional são essenciais para as políticas, mas eu não preciso ter esses registros para as 200 milhões de pessoas. Claro que precisamos ampliar os registros e focar na qualidade das informações. Mas se tivermos um volume de registros, em cidades e regiões estratégicas, isso dê conta de responder às políticas de prevenção e controle do câncer, por exemplo. A informação sobre a sobrevida do paciente não existe nos registros. E esta informação é mais importante, até, que a mortalidade. É com ela que o paciente vai entender em qual hospital ele realmente quer se tratar”, disse.

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