Os Desafios do Mieloma Múltiplo no Brasil

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O mieloma múltiplo é uma neoplasia do sangue, originária na medula óssea e que, com o tempo, pode acometer os ossos.  Este tipo de câncer, na maior parte dos casos, surge em pessoas com mais de 70 anos de idade, de ambos os sexos e pode ser tanto assintomático (quando os plasmócitos, responsáveis pela produção dos anticorpos naturais, se infiltram em pouca quantidade na medula óssea) como ter sintomas agressivos e bem característicos da doença, sendo os principais: dor nas costas e pernas, fraturas ósseas e cansaço excessivo.

No geral, o mieloma múltiplo é uma doença bastante conhecida pelos médicos, porém o paciente percorre uma jornada com muitos desafios antes de chegar ao hematologista e, até mesmo, ao longo do tratamento. A ABRALE – Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia em sua mais recente pesquisa com 200 pacientes de mieloma de todo o Brasil, revela alguns destes desafios (tabela abaixo):

Diagnóstico Acesso ao Tratamento Tratamento Qualidade de Vida
29% levaram mais de 1 ano para receber o diagnóstico 84% estão satisfeitos com o tratamento 71% não fazem acompanhamento com equipe multidisciplinar 98% nunca tinham ouvido falar na doença antes do diagnóstico
37% passaram por vários médicos 45% não têm acesso a tratamentos mais avançados 44% estão na primeira linha e, 31%, na terceira linha 53% relataram mudança na rotina após o tratamento
20% tiveram diagnóstico inconclusivo 60% entraram com ação judicial em algum momento conseguir o medicamento prescrito 66% tiveram recidiva da doença e, 25%, não tiveram resposta com o tratamento realizado 60% deixaram de trabalhar ou têm dificuldade de conseguir emprego
44% tiveram dificuldades para receber o diagnóstico 68% sofreram com indisponibilidade do medicamento no centro de tratamento 44% tiveram feitos colaterais com o tratamento 48% disseram que as mudanças foram geradas em decorrência da doença

 

Mais da metade dos pacientes pesquisados levaram até 3 meses para iniciar o tratamento após o diagnóstico

O Mieloma Múltiplo no Sistema Único de Saúde

Para os últimos 8 anos, os procedimentos para Mieloma Múltiplo (CID-10: C90), se concentram nos estados de São Paulo (25,52%), Minas Gerais (12,75%), Rio Grande do Sul (8,43%) e Rio de Janeiro (8,25%). Não houve diferença significativa entre homens e mulheres e foram realizados, principalmente, em pessoas brancas (47,30%) seguido de negros (28,11%). Em relação à distribuição etária, 33,01% dos procedimentos foram realizados em pacientes na de 60-69 anos, 25,03% entre 70-79 anos e 23,12% em pacientes entre 50-59 anos.

Em relação às linhas de tratamento, os pacientes com Mieloma Múltiplo podem ser divididos, a grosso modo, em três grupos: 1. Pacientes candidatos ao Transplante de Medula Óssea (TMO) autólogo; 2. Pacientes não candidatos ao Transplante de Medula Óssea autólogo; 3. Tratamento adjuvante – Doença óssea.

De acordo com o Manual de Condutas em Oncologia do ICESP (1):

Para o grupo 1: O tratamento de 1.ª linha e primeira opção incluí: Ciclofosfamida, Dexametasona e Talidomida; para 1.ª linha e segunda opção está previsto o uso de: Dexametasona, Bortezomibe e se não obtida resposta após 2 ciclos, é adicionada Ciclofosfamida. Pacientes com recidiva ou doença refratária após TMO autólogo são tratados com Dexametasona, Talidomida, Cisplatina, Doxorrubicina e Etoposide.

Para o grupo 2: O tratamento de 1.ª linha e primeira opção (MDT) inclui: Melfalano, Dexametasona e Talidomida; para 1.ª linha e segunda opção (CTD) está previsto o uso de: Ciclofosfamida, Dexametasona e Talidomida. Para o tratamento pacientes com insuficiência renal e outras condições especiais** está previsto o uso de: Dexametasona e Bortezomibe e se não obtida resposta após 2 ciclos, é adicionada Ciclofosfamida.

Para o grupo 3: Pacientes com lesões líticas, fraturas e/ou fraturas compressivas por osteopenia são tratados com inibidores de reabsorção óssea (hipercalcemia e osteólise), neste caso Pamidronato.

Notas:
*Informações referentes à procedimentos realizados no SUS.
** Insuficiência Renal e/ou FISH apresentando t(4;14), t(14;16) ou citogenética convencional como deleção de cromossomo 13 ou hipodiploidia.

Referências:
1. Manual de condutas em oncologia. Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira. São Paulo, 2010.

Fonte dos dados:
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINFOMA E LEUCEMIA – ABRALE. Pesquisa qualitativa de seguimento terapêutico com pacientes de Mieloma Múltiplo. 2017.
Ministério da Saúde. DataSUS. Sistema de Informação Ambulatorial do SUS – SIA/SUS.