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2017 – 2047: em 30 anos venceremos a guerra contra o câncer?

Desde 1975, quando o Ministério da Saúde desenvolveu e implantou o Sistema de Informações sobre Mortalidade – conhecido como SIM – os estudos epidemiológicos apontam as Doenças do Aparelho Circulatório como a principal causa de morte no Brasil. No país como um todo, a partir do ano de 2029 haverá mais brasileiros, entre homens, mulheres e crianças, que morrerão com algum tipo de câncer do que com algum tipo de doença cardiovascular.

A taxa de mortalidade estima o risco de morte pela doença ou grupo de doenças, dimensiona a sua magnitude como problema de saúde pública mais especificamente para os casos mais graves, e expressa também as condições de diagnóstico e da assistência médica.

A mudança no processo saúde-doença propicia ao Brasil um período de transição epidemiológica com predomínio das doenças crônicas não transmissíveis, dentre elas o câncer. A melhor forma para mensurar o peso de uma causa de morte não é conferida pelo estudo de suas características nos indivíduos, mas sim quanto ao processo que ocorre na coletividade humana.

Este estudo comprova que a história, a cultura e os hábitos de vida explicam como um povo adoece e morre. Todos os dias estamos expostos a fatores de risco como alimentação inadequada, inatividade física, sobrepeso, tabagismo, uso excessivo de drogas e fatores externos ao nosso corpo como violência, acidentes, problemas ambientais e desigualdades sociais.

Sobre a projeção de mortalidade

Para esta Projeção de mortalidade foi utilizado um Modelo de Suavização Exponencial, levando em conta que os dados podem apresentar uma tendência e/ou um padrão sazonal. Os números utilizados incluem a taxa de mortalidade padronizada pela população mundial, com base na série histórica de óbitos captados pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade do período entre 2000 e 2014 e na projeção da população do Brasil e das Unidades da Federação segundo o IBGE. A taxa de mortalidade é calculada por uma divisão do número absoluto de óbitos pela população residente em determinado espaço geográfico, no ano considerado.

Neste estudo a projeção de mortalidade foi realizada ao longo do tempo entre os anos de 2000 e 2047. Assim, a pergunta que desafia a todos os cidadãos brasileiros é: daqui a 30 anos teremos vencido a guerra contra o câncer?

As estimativas alertam que em 2047, nos estados do Amapá, Ceará, Maranhão, Goiás, Paraíba, Rio Grande do Norte, Roraima, Sergipe e Tocantins as principais causas de morte serão oriundas das causas externas (acidentes, suicídios, agressões, complicações médicas e sequelas de outras causas externas de morbidade). Nos estados de Goiás, Roraima e Tocantins, o câncer será a segunda maior causa de morte.

Nos estados de Alagoas e Mato Grosso do Sul, as doenças do aparelho circulatório seguem como principal causa de morte em 2047, entretanto no segundo estado, respectivamente, as neoplasias seguem como a segunda maior causa de morte.

No Paraná, o câncer será a principal causa de morte em 2030, porém as doenças do sistema nervoso ultrapassarão esse índice para se tornar a primeira causa de morte em 2044. Em 2031 o câncer se tornará a maior causa de morte em Minas Gerais, todavia em 2044 as doenças do aparelho geniturinário se tornarão a primeira causa de morte neste estado.

De acordo com as estimativas, se não houverem medidas efetivas na prevenção e controle do câncer os seguintes estados enfrentarão as neoplasias como principal causa de morte: Acre (2028), Amazonas (2047), Espírito Santo (2042), Mato Grosso (2044), Rio Grande do Sul (2029), Rondônia (2046), Santa Catarina (2025) e São Paulo (2041).

Fonte dos dados:
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Disponível on-line em: <http://www2.datasus.gov.br/>.
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Projeção da população do Brasil e das Unidades da Federação. Disponível on-line em: <http://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/index.html>

Notas:
* Neste estado as Doenças do aparelho circulatório se tornarão a principal causa de morte em 2047
** Neste estado as Causas externas de morbidade e mortalidade se tornarão a principal causa de morte em 2047

Dos Dados de Hoje às Mortes por Câncer em 2029

Se a forma como o Brasil conduz a Política Nacional de Atenção Oncológica não for modificada, em 2029 o câncer se tornará a primeira causa de morte no país e, pela primeira vez, ficará à frente das doenças cardiovasculares (1,2). Mas será que as chances de morrer por câncer serão iguais entre homens e mulheres residentes das diferentes regiões brasileiras? Além disso, será que os cânceres que mais matam hoje serão os mesmos que mais matarão em 2029? As respostas, que podem até parecer intuitivas, não são tão óbvias e para obtê-las, ainda que com grande margem de incerteza, é necessária uma rigorosa análise dos dados históricos, compreensão das políticas públicas em curso no âmbito da prevenção e do tratamento do câncer e uma visão sistêmica sobre as tendências de longo prazo dos indicadores demográficos e sociais.

Novos conhecimentos a partir dos dados históricos
A partir dos dados de mortalidade por câncer entre os anos de 2000 a 2014, calculados com base nos microdados dos registros de óbito disponibilizados pelo Ministério da Saúde e nos dados demográficos disponibilizados pelo IBGE, projetamos a trajetória da taxa de mortalidade por câncer até o ano de 2029 por tipo de câncer, sexo do paciente e região de ocorrência do óbito (3,4). A boa notícia é que as projeções já apontam algumas tendências positivas, embora ainda não possamos comemorar, já que há também inúmeras descobertas alarmantes.

Taxa de mortalidade por câncer entre mulheres

Entre os cânceres de maior mortalidade entre as mulheres, as boas notícias são que:
–  A mortalidade por câncer de mama permanecerá estável nas Regiões Sul e Sudeste, ou seja, manterá praticamente as mesmas taxas de 2014.
–  A mortalidade por câncer do colo do útero diminuirá no Sul e Sudeste e permanecerá estável no Nordeste e Centro-Oeste.

Quanto às más notícias:
–  A mortalidade por câncer de mama aumentará drasticamente nas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, superando as mais altas taxas da atualidade.
–  A mortalidade por câncer de colo do útero aumentará no Norte em cerca de 50%, permanecendo como a primeira causa de morte por câncer na região.
–  A mortalidade por câncer de cólon, reto e ânus terá forte crescimento em todas as regiões brasileiras, especialmente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
–  A mortalidade por câncer de traqueia, brônquio e pulmão, com exceção do Norte, terá forte crescimento, passando para a primeira posição entre as causas de morte por câncer no Sul e para a segunda posição no Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.

Taxa de mortalidade por câncer entre homens

Entre os homens, as boas notícias são:
–  A mortalidade por câncer de próstata permanecerá estável nas Regiões Sul e Sudeste.
–  A mortalidade por câncer de traqueia, brônquio e pulmão continuará em queda no Sul e Sudeste.
–  A mortalidade por câncer de estômago também continuará em queda no Sul e Sudeste.

Quanto as más notícias:
–  A mortalidade por câncer de próstata aumentará ainda mais nas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, permanecendo como a primeira causa de morte por câncer nestas três regiões.
–  A mortalidade por câncer de traqueia, brônquio e pulmão crescerá fortemente no Norte e Nordeste.
–  A mortalidade por câncer de estômago também aumentará no Norte.
–  A mortalidade por câncer de cólon, reto e ânus aumentará radicalmente em quase todas as regiões brasileiras (exceto Sul).

Dos dados à tomada de decisão
A taxa de mortalidade por câncer estima o risco de morte pela doença, dimensiona a sua magnitude como problema de saúde pública e expressa também as condições de diagnóstico e da assistência médica dispensada. Não podemos afirmar se as pioras projetadas em algumas dessas taxas são resultado da falta de diagnóstico, do diagnóstico tardio ou mesmo das dificuldades crescentes no acesso ao tratamento enfrentadas pelos pacientes, mas é fato que muitos tipos de câncer são preveníveis e diversos outros têm a mortalidade drasticamente reduzida quando diagnosticados precocemente. Mais uma vez, conscientização para prevenção é a alternativa mais efetiva e duradoura no longo prazo.

 Fonte dos dados:
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Disponível on-line em: <http://www2.datasus.gov.br/>.
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2010. Disponível on-line em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/default.shtm>.

Notas:
(1) Observatório de Oncologia. 2029: Ano em que o Câncer será a Primeira Causa de Morte no Brasil. Disponível online em: http://observatoriodeoncologia.com.br/2029-ano-em-que-o-cancer-sera-a-primeira-causa-de-morte-no-brasil/.
(2) No Brasil, os dados de mortalidade são coletados através do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) desde 1975.
(3) Para os anos de 2000 a 2014, foram calculadas as respectivas taxas de mortalidade padronizada pela população mundial, a partir da divisão do total de óbitos por neoplasias malignas pelo total da população residente na região geográfica, no ano considerado.
(4) Para os anos e 2015 a 2029, foram realizadas projeções calculadas utilizando suavização exponencial.