10 Perguntas e Respostas para Entender Melhor o Transplante de Células-Tronco

1. O que são células-tronco hematopoéticas?

As células-tronco hematopoéticas são células que tem a capacidade de se diferenciar e produzir todos os tipos de células sanguíneas e do sistema imune, como as hemácias, os linfócitos, entre outras. As células-tronco têm três características que as distinguem dos demais tipos de células: são células capazes de se dividir indefinidamente, são indiferenciadas, mas podem se diferenciar sob certos estímulos (1).

2. De onde vem estas células?

As células-tronco hematopoéticas, também denominadas células progenitoras ou precursoras, podem ser obtidas a partir de três fontes: da medula óssea, do sangue periférico ou do sangue do cordão umbilical e placentário (1).

  • Medula óssea: as células são coletadas do sangue do interior dos ossos do quadril.
  • Sangue periférico: as células são obtidas a partir do sangue venoso utilizando um equipamento chamado máquina de aférese.
  • Sangue de cordão umbilical e placentário: as células são obtidas a partir do sangue do cordão umbilical de recém-nascidos ou da placenta.

3. O que é o transplante de células-tronco hematopoéticas?

O transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH) é um tipo de terapia utilizada para o tratamento de diversas doenças, especialmente as doenças onco-hematológicas e hematológicas (2).

4. Quando surgiu este tipo de transplante?

Em meados do século 19, cientistas italianos descobriram que a medula óssea, ou o interior dos ossos, seria a fonte das células do sangue, mas somente na virada do século 20 os cientistas sugeriram de que um pequeno número de células da medula óssea, as quais denominaram células-tronco, seria responsável pelo desenvolvimento de todas as células do sangue. O transplante de medula óssea como modalidade terapêutica à radiação começou a ser explorado cientificamente por civis e militares no final da Segunda Guerra Mundial a partir da observação de que o contato de pessoas com a radiação resultante da exposição à bomba atômica ou de acidentes causados pelas usinas nucleares resultou em lesão dessas células-tronco na medula óssea (3).

5. Como funciona o transplante?

No TCTH a medula óssea do paciente é substituída por células-tronco hematopoéticas de pessoas sadias ou substituída por células sadias de sua própria medula óssea (2). Antes do transplante, o paciente faz um tratamento quimioterápico e/ou radioterápico, a depender da doença, e, em seguida, recebe as células-tronco hematopoéticas, que aos poucos se instalam dentro da medula óssea. Espera-se que depois de um determinado período de tempo, variável de paciente para paciente, as células do doador comecem a se multiplicar no paciente produzindo novas células do sangue sadias.

6. Quais são os tipos de transplantes?

O TCTH pode ser classificado em três tipos, de acordo com o tipo de doador: autólogo, alogênico ou singênico (2).

  • Autólogo ou autogênico: quando o doador é o próprio paciente. Neste caso, as células sanguíneas sadias da medula óssea originárias do próprio paciente podem ser reinfundidas imediatamente ou criopreservadas para infundir quando necessário (4).
  • Alogênico: quando o doador é uma pessoa aparentada ou não aparentada.
    • Aparentado: o doador e o paciente são consanguíneos, por exemplo irmãos ou familiares, podendo ser totalmente compatíveis ou haploidênticos (50% compatíveis).
    • Não aparentado: o doador e o paciente não são familiares, portanto não são consanguíneos.
  • Singênico: quando o doador é um irmão gêmeo idêntico.

7. Para quem o transplante é indicado?

O TCTH é indicado para o tratamento de doenças do sangue, algumas imunodeficiências congênitas, erros inatos de metabolismo e tumores sólidos, porém a recomendação do tipo de transplante e do melhor momento para a intervenção dependem da avaliação do médico hematologista (2,5). O tipo de transplante indicado aos pacientes com doenças onco-hematológicas e hematológicas está intrinsecamente relacionado à idade e patologia do paciente.

  • TCTH autólogo: realizado em pacientes com idade igual ou inferior a 75 anos com as seguintes patologias: Leucemia Mieloide Aguda, Linfoma não Hodgkin, Linfoma de Hodgkin ou Mieloma Múltiplo.
  • TCTH alogênico aparentado: realizado em pacientes com idade igual ou inferior a 70 anos com as seguintes patologias: Leucemia Mieloide Aguda, Leucemia Linfoide Aguda, Leucemia Mieloide Crônica, Anemia Aplástica, Síndrome Mielodisplásica, Talassemia Maior, Mielofibrose, Leucemia lLinfoide Crônica, Mieloma Múltiplo, Linfoma não Hodgkin ou Linfoma de Hodgkin.
  • TCTH alogênico não aparentado: realizado em pacientes com idade igual ou inferior a 60 anos com as seguintes patologias: Leucemia Mieloide Aguda, Leucemia Linfoide Aguda, Leucemia Mieloide Crônica, Anemia Aplástica, Síndrome Mielodisplásica, Osteopetrose ou Mielofibrose.

8. Onde encontrar um doador de medula óssea?

Se não for encontrado um doador compatível entre os familiares ou a rede de relacionamento do paciente, pode-se recorrer ao Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea, ou REDOME (1).

REDOME (Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea): composto por dados pessoais e pelos resultados dos exames dos doadores voluntários de medula óssea.

REREME (Registro Brasileiro de Receptores de Medula Óssea ou outros precursores hematopoéticos): composto por dados pessoais e resultados dos exames dos pacientes elegíveis para o transplante.

9. Como saber se o doador é compatível?

A compatibilidade entre o doador de medula óssea e o paciente é atestada por um exame de histocompatibilidade, denominado exame de Antígenos Leucocitários Humanos ou simplesmente HLA, teste que identifica características genéticas que podem influenciar no transplante.

10. Quantos e onde são realizados os transplantes no Brasil?

No Brasil, anualmente, cerca de 50 estabelecimentos públicos realizam algum tipo de transplante de células-tronco hematopoéticas. Especificamente em 2015, 1.711 pacientes foram submetidos a transplantes de células-tronco em 45 estabelecimentos públicos do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo 1.069 utilizando sangue periférico (62%), 639 utilizando medula óssea (37%) e apenas 3 utilizando sangue de cordão umbilical (<1%).  Os 9 estabelecimentos que mais realizaram transplantes respondem, em conjunto, por mais da metade de todos os procedimentos (52%), mas diferem de forma significativa tanto quanto ao tipo de doença tratada e ao tipo de transplante utilizado quanto à taxa de sucesso imediata do transplante (6). Do total de pacientes transplantados, após o procedimento, mas ainda durante a internação, 1.611 pacientes tiveram desfechos positivos (?94%) e 100 foram a óbitos (?6%).

Fonte dos dados:
1. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH). Disponível on-line em: <http://www2.datasus.gov.br/.>.

Notas:
1. SILVA JUNIOR FC, ODONGO FCA, DULLEY FL. Células-tronco hematopoéticas: utilidades e perspectivas. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, São Paulo, v.31, supl.1, p.53-58, 2009. Disponível on-line em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-84842009000700009.>.
2. INCA. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Tópicos em transplante de células-tronco hematopoéticas. Rio de Janeiro: INCA, 2012. Disponível on-line em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/inca/topicos_transplantes.pdf.>
3. ABRALE. Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia. Manual de Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas do Sangue e da Medula Óssea. Disponível on-line em: <http://www.abrale.org.br/web/uploads/files/transplante-de-celulas%20tronco.pdf.>.
4. Criopreservação é a conservação de células a -180°C em tanques de nitrogênio.
5. MINISTÉRIO DA SAÚDE. CONITEC. Relatório de recomendação do Transplante de Células-Tronco Hematopoéticas para a Doença Falciforme. Brasília: MS, 2015. Disponível on-line em: <http://formsus.datasus.gov.br/novoimgarq/19909/3113763_109700.pdf.>
6. A taxa de sucesso imediata refere-se ao percentual de pacientes que obtiveram alta hospitalar após um procedimento de transplante de células-tronco hematopoéticas. Neste número não estão incluídos os pacientes que reinternam após receberam alta ou vão a óbito.