Archive: 15 de julho de 2016

A Jornada do Paciente com Linfoma de Hodgkin no Brasil

Com origem no sistema linfático, o Linfoma de Hodgkin (LH), também conhecido por Doença de Hodgkin, é um câncer que acomete as nossas células de defesa e pode se desenvolver em qualquer parte do corpo, mais frequentemente nos gânglios linfáticos presentes no tórax, pescoço, axilas ou virilha. Quase a totalidade dos pacientes (98%) relata ter apresentado algum sintoma antes de descobrir a doença, enquanto que apenas 2% foi diagnosticado em exames de rotina (1).

Apesar de há bem pouco tempo não termos muita informação sobre o Linfoma de Hodgkin, atualmente este tipo de câncer linfático está cada vez mais presente em noticiários e na vida das pessoas e uma boa parcela da população já ouviu falar ou conhece alguém que já teve a doença. Por outro lado, quem já foi diagnosticado com essa patologia, em sua maioria (85%), relata nunca ter ouvido falar na doença antes e, 7 em cada 10 pacientes, busca informações principalmente através da internet.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o número de casos novos de Linfoma de Hodgkin estimado para o ano de 2016 é de 2.470 casos, onde 59% são homens e 41% mulheres, de qualquer faixa etária, porém, os jovens de 15 a 25 anos são os que mais recebem o diagnóstico. Ainda segundo o Inca, cerca de 39% dos casos são esperados na Região Sudeste e 27% na Região Sul (2).

Diagnóstico X Tratamento

Entre os pacientes que tiveram sintomas, 74% levaram até 3 meses para procurar o médico e a maioria (66,5%) iniciou o tratamento em até 30 dias após o diagnóstico, destacando que a principal dificuldade para iniciar com as terapias é o agendamento de consultas/exames (79%). Embora em 75% dos casos a primeira especialidade médica procurada é o clínico geral, o profissional responsável pelo tratamento de 98% dos pacientes é mesmo o hematologista ou oncologista.
É importante ressaltar que o linfoma de Hodgkin tem altas chances de cura, principalmente quando a doença é diagnosticada logo no início. Os tratamentos são baseados principalmente em ciclos de quimioterapia, sessões de radioterapia e, em alguns casos, é indicado o transplante de medula óssea (TMO) autólogo*.
Como primeira linha de tratamento**, 49% faz quimioterapia com radioterapia e 47% faz apenas quimioterapia. Dos pacientes que partem para uma segunda linha de tratamento, 45% faz quimioterapia seguido de TMO autólogo.
Os efeitos colaterais do tratamento de LH mais reportados pelos pacientes são: queda de cabelo (88%), náuseas e vômitos (87%), fadiga/fraqueza (71%), mudança de apetite (61%), alterações intestinais (45%), reações na pele (42%) e alterações de mucosa oral (40%). Os pacientes também relataram que os efeitos adversos da quimioterapia pesam na hora de dar continuidade ao tratamento, esses efeitos despontam como a principal dificuldade nesta fase em 65% dos casos.

Atualmente, com os avanços da ciência, os tratamentos possibilitam uma remissão completa da doença*** e, consequentemente, uma vida normal aos pacientes diagnosticados com LH.

Fontes dos dados:
1. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA-SUS). Disponível on-line em: <http://www2.datasus.gov.br/.>.

Referências:
1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINFOMA E LEUCEMIA – ABRALE. Pesquisa qualitativa de seguimento terapêutico com pacientes de Linfoma de Hodgkin. Revista da ABRALE, 2013.
2. Observatório de Oncologia. 23 Mil Casos Novos de Câncer no Sangue. Disponível on-line em: <http://observatoriodeoncologia.com.br/23-mil-casos-novos-de-cancer-no-sangue-em-2016>.

Notas:
* Transplante de medula óssea que acontece com as próprias células do paciente, mas só é possível nos casos em que a medula não esteja completamente comprometida e que haja um número suficiente de células-tronco saudáveis na medula ou no sangue do paciente.
** Primeiro tratamento prescrito pelo médico quando o paciente é diagnosticado.
*** Quando não há mais sinais da doença no organismo do paciente.

Dos Dados de Hoje às Mortes por Câncer em 2029

Se a forma como o Brasil conduz a Política Nacional de Atenção Oncológica não for modificada, em 2029 o câncer se tornará a primeira causa de morte no país e, pela primeira vez, ficará à frente das doenças cardiovasculares (1,2). Mas será que as chances de morrer por câncer serão iguais entre homens e mulheres residentes das diferentes regiões brasileiras? Além disso, será que os cânceres que mais matam hoje serão os mesmos que mais matarão em 2029? As respostas, que podem até parecer intuitivas, não são tão óbvias e para obtê-las, ainda que com grande margem de incerteza, é necessária uma rigorosa análise dos dados históricos, compreensão das políticas públicas em curso no âmbito da prevenção e do tratamento do câncer e uma visão sistêmica sobre as tendências de longo prazo dos indicadores demográficos e sociais.

Novos conhecimentos a partir dos dados históricos
A partir dos dados de mortalidade por câncer entre os anos de 2000 a 2014, calculados com base nos microdados dos registros de óbito disponibilizados pelo Ministério da Saúde e nos dados demográficos disponibilizados pelo IBGE, projetamos a trajetória da taxa de mortalidade por câncer até o ano de 2029 por tipo de câncer, sexo do paciente e região de ocorrência do óbito (3,4). A boa notícia é que as projeções já apontam algumas tendências positivas, embora ainda não possamos comemorar, já que há também inúmeras descobertas alarmantes.

Taxa de mortalidade por câncer entre mulheres

Entre os cânceres de maior mortalidade entre as mulheres, as boas notícias são que:
–  A mortalidade por câncer de mama permanecerá estável nas Regiões Sul e Sudeste, ou seja, manterá praticamente as mesmas taxas de 2014.
–  A mortalidade por câncer do colo do útero diminuirá no Sul e Sudeste e permanecerá estável no Nordeste e Centro-Oeste.

Quanto às más notícias:
–  A mortalidade por câncer de mama aumentará drasticamente nas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, superando as mais altas taxas da atualidade.
–  A mortalidade por câncer de colo do útero aumentará no Norte em cerca de 50%, permanecendo como a primeira causa de morte por câncer na região.
–  A mortalidade por câncer de cólon, reto e ânus terá forte crescimento em todas as regiões brasileiras, especialmente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
–  A mortalidade por câncer de traqueia, brônquio e pulmão, com exceção do Norte, terá forte crescimento, passando para a primeira posição entre as causas de morte por câncer no Sul e para a segunda posição no Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.

Taxa de mortalidade por câncer entre homens

Entre os homens, as boas notícias são:
–  A mortalidade por câncer de próstata permanecerá estável nas Regiões Sul e Sudeste.
–  A mortalidade por câncer de traqueia, brônquio e pulmão continuará em queda no Sul e Sudeste.
–  A mortalidade por câncer de estômago também continuará em queda no Sul e Sudeste.

Quanto as más notícias:
–  A mortalidade por câncer de próstata aumentará ainda mais nas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, permanecendo como a primeira causa de morte por câncer nestas três regiões.
–  A mortalidade por câncer de traqueia, brônquio e pulmão crescerá fortemente no Norte e Nordeste.
–  A mortalidade por câncer de estômago também aumentará no Norte.
–  A mortalidade por câncer de cólon, reto e ânus aumentará radicalmente em quase todas as regiões brasileiras (exceto Sul).

Dos dados à tomada de decisão
A taxa de mortalidade por câncer estima o risco de morte pela doença, dimensiona a sua magnitude como problema de saúde pública e expressa também as condições de diagnóstico e da assistência médica dispensada. Não podemos afirmar se as pioras projetadas em algumas dessas taxas são resultado da falta de diagnóstico, do diagnóstico tardio ou mesmo das dificuldades crescentes no acesso ao tratamento enfrentadas pelos pacientes, mas é fato que muitos tipos de câncer são preveníveis e diversos outros têm a mortalidade drasticamente reduzida quando diagnosticados precocemente. Mais uma vez, conscientização para prevenção é a alternativa mais efetiva e duradoura no longo prazo.

 Fonte dos dados:
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Disponível on-line em: <http://www2.datasus.gov.br/>.
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2010. Disponível on-line em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/default.shtm>.

Notas:
(1) Observatório de Oncologia. 2029: Ano em que o Câncer será a Primeira Causa de Morte no Brasil. Disponível online em: http://observatoriodeoncologia.com.br/2029-ano-em-que-o-cancer-sera-a-primeira-causa-de-morte-no-brasil/.
(2) No Brasil, os dados de mortalidade são coletados através do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) desde 1975.
(3) Para os anos de 2000 a 2014, foram calculadas as respectivas taxas de mortalidade padronizada pela população mundial, a partir da divisão do total de óbitos por neoplasias malignas pelo total da população residente na região geográfica, no ano considerado.
(4) Para os anos e 2015 a 2029, foram realizadas projeções calculadas utilizando suavização exponencial.