O câncer de mama é a neoplasia mais comumente diagnosticada em mulheres, configurando-se em importante problema de saúde pública mundial devido à sua elevada incidência e morbimortalidade (Santos et al, 2022).
No Brasil, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), estimam-se cerca de 78 mil casos novos de câncer de mama para cada ano do trinênio 2026-2028. Foi o segundo tipo de câncer mais diagnosticado no mundo em 2024, correspondendo a 11,8% de todos os novos casos de câncer registrados no período (Inca, 2026). No mesmo ano, a doença foi responsável por aproximadamente 700 mil mortes entre mulheres em todo o mundo, configurando-se como a principal causa de mortalidade feminina por neoplasias, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2026).
Os melhores desfechos de tratamento e qualidade de vida estão associados ao diagnóstico precoce, nos estádios iniciais da doença, e ao rápido início do tratamento ambulatorial e hospitalar (Polverini et al, 2016; de Mello Ramirez Medina, 2018; Rodriguez-Rincon et al, 2019). Para isso é fundamental as ações de rastreamento que buscam diminuir a morbidade e mortalidade, identificando tumores em fases iniciais para melhorar as chances de reabilitação e cura (Vilas-Lobo et al, 2022).
Método
Estudo descritivo baseado em dados secundários dos Sistemas de Informação de Produção Ambulatorial (SIA-PA), Autorização de Procedimentos de Alta Complexidade para os procedimentos de Quimioterapia e Radioterapia (SIA-APAC), Internação (SIH), Mortalidade (SIM) e Painel Oncologia (PO) do Departamento de Informática do SUS (DATASUS) de pacientes com câncer de mama baseado no código C50 da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10) atendidos no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2015 e 2025.
Resultados
Mamografias de Rastreamento
Entre 2015 e 2025, foram produzidas mais de 25 milhões de exames de mamografia de rastreio nas faixas etárias de 50 a 69 anos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, durante os anos de 2020 e 2021, após o início da pandemia de Covid-19, houve uma redução significativa no número de mamografias realizadas, com uma queda de 41,5% em 2020 e 17,2% em 2021 em comparação com 2019, o ano pré-pandemia. Em 2022, observou-se um aumento de pouco mais de 1% no número de mamografias em relação a 2019, indicando uma recuperação após os impactos dos anos anteriores. Em 2023, esse aumento foi de 4,5% em relação a 2022. Já em 2024, o país apresentou queda de 0,2% na produção de mamografias quando comparado a 2023, e posteriormente nova queda de 1% em 2025 quando comparado a 2024.
Em se tratando de raça/cor, 19,6% dos dados dessa variável não foram preenchidos, correspondendo mais de 1/5 de informação ignorada no momento do preenchimento da variável. Excluindo-se esses registros, 50% dos exames de mamografia de rastreio foram realizados em mulheres brancas e 37,2% em mulheres negras (pardas e pretas). Mulheres amarelas que realizaram a mamografia totalizaram 12,7% e indígenas, apenas 0,1%.
O país computou taxas de cobertura mamográfica nos biênios de 26,8% em 2015-2016. 24,3% em 2017-2018, 18,7% em 2019-2020, 20,8% em 2021-2022, 23% em 2023-2024 e 22,1% em 2025. Os estados que apresentaram menores taxas de cobertura de mamografia de rastreio em 2025 foram Pará, com 11% e 8,7%, e Tocantins, com 6,3% e 5,8%, respectivamente. Já os que apresentaram as maiores coberturas no mesmo ano foram Piaui (32,4%), Bahia (28,8%) e São Paulo (28,7%).
Diagnóstico
Cerca de 51% dos diagnósticos de câncer de mama ocorreram em estadiamentos avançados (3 e 4) da doença. Distrito Federal, Amazonas e Rondônia são os estados com piores desfechos de estadiamento ao diagnóstico, sendo que mais de 60% das pacientes atendidas foram diagnosticadas em estadiamentos tardios. Por outro lado, os estados com os menores percentuais de diagnósticos nos estágios 3 ou 4 foram o Rio Grande do Sul (38,1%), Rio Grande do Norte (40%) e São Paulo (49%).
O tempo médio entre o recebimento do diagnóstico do câncer de mama e início do tratamento, para o período de 2015 a 2025 no Brasil, foi de 123 dias, sendo Roraima, com 195 dias, Amapá com 170 dias, e Rio de Janeiro, com 159 dias, os estados com o pior desempenho no tempo entre o recebimento do diagnóstico do câncer de mama. O tempo para início do tratamento aumentou consideravelmente de acordo com o aumento da faixa etária. Enquanto pacientes entre 20 e 29 anos levaram, em média, 98 dias para iniciar o tratamento, esse tempo médio aumentou para 125 dias para pacientes entre 50 e 59 anos e para 122 dias para aqueles entre 60 e 69 anos.
Tratamento
Entre 2015 e 2025, foram notificadas quase 800 mil Autorizações de Internação Hospitalar (AIH), com uma média de cerca de 71 mil internações por ano e um tempo de internação médio de 3 dias. Durante esse período, estima-se que cerca de 515 mil pacientes foram admitidos no sistema de saúde brasileiro com diagnóstico de câncer de mama, passando por uma média de 1,5 internações no período mencionado. O custo médio por internação foi de aproximadamente R$2.200,00, com um custo total de mais de um bilhão de reais.
Em relação à raça/cor, 10,6% dos dados foram ignorados e excluídos das análises. Assim, 48,5% das pacientes foram autodeclaradas brancas, seguidas por 43,1% de pardas e 7,1% de pretas. Mulheres asiáticas ou descendentes de asiáticos representaram 1,3% dos casos, e indígenas, 0,01%. Quanto à faixa etária, mulheres com idade entre 50 e 59 anos foram as que mais internaram, representando 26,8% das internações, seguidas pelas de 60 a 69 anos (23,8%) e 40 a 49 anos (18,4%).
Em se tratando do contexto ambulatorial, foram produzidos mais de 20 milhões de procedimentos de alta complexidade para o tratamento do câncer de mama, sendo aproximadamente 520 mil procedimentos de radioterapia, representando 3%, enquanto os procedimentos de quimioterapia totalizaram 97%. Os custos chegaram a cerca de seis bilhões de reais. Já a média de custo por procedimento de quimioterapia foi de aproximadamente 200 reais, enquanto para os procedimentos de radioterapia, a média foi de cerca de três mil reais.
A faixa etária mais comum foi de 50 a 59 anos, totalizando 28,7% das mulheres atendidas, seguida pelas faixas etárias de 60 a 69 anos, com 25,9%, e de 40 a 49 anos, com 18,8%. Em relação à raça/cor, 9,1% dos dados foram ignorados. Considerando apenas os dados válidos, 55,9% das mulheres atendidas eram brancas e 41,7% negras. Para os dados de radioterapia, é possível perceber similaridades quanto à faixa etária e raça mais prevalentes: 28,6% das mulheres estavam na faixa etária de 50 a 59 anos, seguida pela faixa etária de 60 a 69 anos, com 24,4%, e 40 a 49 anos, com 22,9%. 12,4% dos dados sobre raça/cor não foram preenchidos. Excluindo-os dos cálculos, 54% dos procedimentos em radioterapia foram em mulheres autodeclaradas brancas e 43,3% em mulheres negras.
Mortalidade
Entre os anos de 2015 e 2025 no Brasil, o número de óbitos por câncer de mama chegou a 203.785 notificações. O ano com o maior número de óbitos foi 2025, registrando 21.668 casos, enquanto o ano com o menor número foi 2015, com 15.593 notificações. A média anual de óbitos entre 2015 e 2025 foi de 18.526. Durante esse período, houve um aumento de 39% no número de óbitos.
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O estado de São Paulo foi o mais notificado para óbitos por câncer de mama entre os anos estudados, com 25,3% dos óbitos, seguido por Rio de Janeiro, com 12,6% e Minas Gerais, com 9,4%. Com isso, e adicionando o percentual de óbitos no estado do Espírito Santo, é possível calcular que 49,2% dos casos de óbito foram concentrados na região Sudeste.
A maioria dos óbitos ocorreu nas faixas etárias de 60 a 69 anos, totalizando 22,5% dos casos, seguida pela faixa etária de 55 a 59 anos, com 22,2%, e de 70 a 79 anos, com 17,8%. Em relação à raça, 58,6% dos óbitos foram de mulheres brancas e 40,7% no período em mulheres negras.
Considerações finais
O Brasil enfrenta desafios no diagnóstico e tratamento do câncer de mama, apesar das leis N° 12.732/2012 (Lei dos 60 dias) e N° 13.896/2019 (Lei dos 30 dias), e da Política Nacional para a Prevenção e Controle do Câncer (PNPCC). Além disso, o SUS tem falhado em proporcionar assistência adequada, apresentando significativa heterogeneidade regional.
Referências
de Mello Ramirez Medina J, de Araujo Trugilho I, Mendes GNB, Silva JG, da Silva Paiva MA, de Aguiar SS, Thuler LCS, Bergmann A. Advanced Clinical Stage at Diagnosis of Breast Cancer Is Associated with Poorer Health-Related Quality of Life: A Cross-Sectional Study. Eur J Breast Health. 2018 Dec 19;15(1):26-31. doi: 10.5152/ejbh.2018.4297. PMID: 30816366; PMCID: PMC6385723.
Instituto Nacional de Câncer – INCA. Estimativa 2026 : incidência de câncer no Brasil / Instituto Nacional de Câncer. – 2. ed. rev. e atual. – Rio de Janeiro: INCA, 2026. [acesso em 21 de setembro de 2026]. Disponível em: https://ninho.inca.gov.br/jspui/bitstream/123456789/18062/1/3_Estimativa_2026%202%20ed%20completo.pdf
Organização Mundial da Saúde – OMS. Agencia Internacional para Pesquisa do Cancer – IARC. Globocan 2024 – Breast [Internet]. [acesso em 22 de setembro de 2026]. Disponível em: https://gco.iarc.who.int/today/en/dataviz/pie?mode=cancer&group_populations=1&sexes=2
Polverini AC, Nelson RA, Marcinkowski E, et al. Time to Treatment: Measuring Quality Breast Cancer Care. Ann Surg Oncol. 2016;23(10):3392–3402. https://doi.org/ 10.1245/s10434-016-5486-7.
Rodriguez-Rincon D, et al. Factors affecting access to treatment of early breast cancer: Cases studies from Brazil, Canada, Italy Spain and UK. RAND EUROPE. 2019. Disponível em: https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/research_reports/RR3000/RR3010 z4/RAND_RR3010z4.pdf. Acesso em: 10/03/2020
Santos, Tainá Bastos dos et al. Prevalência e fatores associados ao diagnóstico de câncer de mama em estágio avançado. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2022, v. 27, n. 02 [Acessado 9 Setembro 2022] , pp. 471-482. Disponível em:
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Vilas-Lobo GR, Santos RS, Silva RR. Screening mammography in SUS before and during the Covid-19 Pandemic: a comparison between biennia. Research, Society and Development, [S. l.], v. 11, n. 10, p. e210111032738, 2022. DOI: 10.33448/rsd-v11i10.32738. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/32738.
Autores: Ana Almeida e Janaina Rosenburg Gioseffi
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