Panorama do diagnóstico de linfomas nos pacientes do sus: análise de dados abertos para o planejamento estratégico da saúde *

Introdução:

Conhecer o panorama do diagnóstico de linfomas nos pacientes tratados no Sistema Único de Saúde (SUS) nos últimos 10 anos é um desafio para o planejamento estratégico da saúde. O diagnóstico precoce (estadios I e II) é fator de bom prognóstico, ao passo que a doença avançada (estadios III e IV) é de pior prognóstico. O diagnóstico precoce é uma valiosa ferramenta para o controle da doença e para possibilitar melhores desfechos.

Objetivo:

Caracterizar a população brasileira diagnosticada com linfoma e tratada no SUS entre 2008 a 2017 em relação a estadiamento ao diagnóstico de acordo com o CID-10, sexo e residência e mortalidade.

Material e métodos:

Estudo descritivo, retrospectivo, longitudinal, baseado em dados secundários do DataSUS (SIA/SUS e SIM/SUS) obtidos de pacientes diagnosticados com CID-10 C81-85.

Resultados:

Foram identificados 70.850 casos de linfomas entre 2008 e 2017, 55% no sexo masculino, mediana de 55 anos, 27% dos casos foram linfoma de Hodgkin (LH). O LH predominou na população mais jovem (idade mediana 28 anos). Entre os linfomas não Hodgkin (LNH), os mais frequentes foram LNH difuso de grandes células B (55%), LNH folicular (9%), LNH de outros tipos e tipo NE (5%) e LNH de células T cutâneas e periféricas (4%). A maioria dos pacientes (56%) fez o tratamento fora do município de residência e apenas 3% fora do estado de residência. O estado de São Paulo concentrou 25% dos pacientes, seguido por Minas Gerais (11%) e Rio Grande do Sul (10%). O início do tratamento após a confirmação diagnóstica ocorreu em até 30 dias para 51% dos pacientes, 22% entre 30 e 60 dias e 27% após 60 dias. Ocorreram 45.601 óbitos por linfoma no período analisado (12% LH e 88% LNH), mediana de 63 anos e mais comum no sexo masculino (55%). Considerando todos os pacientes, em 15.976 (23%) os registros de estadiamento estavam inadequados. Portanto, para esta análise foram considerados os 54.874 registros válidos. Mais da metade dos pacientes (58%) foi diagnosticada com doença avançada, com diagnóstico mais tardio em 60% dos homens e 57% das mulheres. Mais pacientes com LNH foram considerados com estádios III e IV (62%) em comparação com o LH (49%). LNH de outros tipos e tipos NE foi o subtipo com diagnóstico e início de tratamento mais tardios e mortalidade superior aos demais.

Discussão:

Os achados confirmam a hipótese de que o diagnóstico dos pacientes com linfoma no Brasil atendidos pelo SUS entre 2008 e 2017 foi tardio, o que pode interferir na alta taxa de mortalidade. O diagnóstico foi mais frequente e tardio nos homens, o que reforça a necessidade de campanhas de promoção da saúde e prevenção do câncer direcionadas ao público masculino. A capacitação para o diagnóstico deve ser intensificada, com especial atenção ao LNH, cujo diagnóstico foi mais tardio, bem como estabelecer metas para antecipar o início do tratamento.

Conclusão:

O diagnóstico dos linfomas acontece de forma tardia no Brasil, quando a doença já está em estádios avançados e com pior prognóstico. É urgente que medidas efetivas sejam tomadas para antecipar o diagnóstico e o início do tratamento dos linfomas, visto que esse é um aspecto importante para o controle do câncer, além das medidas de prevenção.

 

Referências Bibliográficas:

Paim JS. Epidemiologia e planejamento: a recomposição das práticas epidemiológicas na gestão do SUS. Cienc Saúde Colet. 2003;8(2):557-67.

Correa N. Trajetória da incidência e mortalidade das neoplasias hematológicas no Brasil. Observatório de Oncologia. 2019. Disponível em: https://observatoriodeoncologia.com.br/trajetoria-da-incidencia-e-mortalidade-das-neoplasias-hematologicas-no-brasil/

 

* O presente estudo foi apresentado na forma de exposição oral no Congresso HEMO 2019 da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular- ABHH em 09 de novembro de 2019:

Martins DP, Netto NFC, Melo N, Loggetto SR, Liberal MMC. Panorama do diagnóstico de linfomas nos pacientes o SUS: análise dos dados abertos para o planejamento estratégico da saúde. Hematol Transfus Cell Ther. 2019; 41(Supp2):S89.