O consumo abusivo de álcool e a incidência do câncer

O consumo de bebidas alcoólicas costuma ser uma coisa muito comum na rotina de vida da maioria das pessoas. A ingestão contínua do álcool desgasta o organismo e então surgem os sintomas que comprometem a disposição para as atividades diárias. Há cada vez mais evidências de pesquisas sobre a relação entre o consumo de álcool e a incidência do câncer, que por diversas vezes vêm acompanhado por mensagens pouco claras e conflitantes na mídia. (1)

De que forma o Álcool aumenta o Risco de Câncer?

Segundo a Sociedade Americana de Câncer (2), a forma exata de como o álcool aumenta o risco de câncer não é totalmente conhecida. De fato, pode-se ter várias maneiras diferentes que elevam o risco de câncer, e isto pode depender do tipo de câncer. As alterações que o álcool promove que aumentam o risco de câncer são:

  • Danos aos tecidos do corpo: O álcool pode atuar como um irritante, especialmente na boca e na garganta. As células danificadas podem tentar se reparar, o que pode levar a alterações do DNA das células, o que pode eventualmente terminar no desenvolvimento de um câncer. Bactérias que normalmente vivem no cólon e no reto podem converter o álcool em grandes quantidades de acetaldeído, uma substância química que tem demonstrado causar câncer em animais de laboratório. O álcool e seus subprodutos também tendem a danificar o fígado, levando à inflamação e cicatrizes. Como as células do fígado tentam reparar os danos, elas podem se modificar com erros no DNA, resultando no câncer.
  • Efeitos sobre outros produtos químicos nocivos: O álcool pode ajudar outras substâncias químicas nocivas, como as do fumo do tabaco, a penetrar mais facilmente nas células que revestem o trato digestivo superior. Isso explica por que a combinação de fumar e beber tem maior probabilidade de causar câncer de boca ou garganta, quando comparado a apenas fumar ou beber. Em outros casos, o álcool pode diminuir a capacidade do organismo reparar o dano causado por estas substâncias químicas nocivas.
  • Efeito na absorção de folato ou outros nutrientes: O folato (ou ácido fólico) é uma vitamina que as células do corpo precisam para se manter saudáveis. O álcool pode afetar a capacidade do organismo de absorver alguns nutrientes, como o folato. Assim, a falta de ácido fólico pode ser mais grave em alcoólatras, tanto por problema de absorção quanto por falta de folato na dieta. Os baixos níveis do ácido fólico podem desempenhar um papel importante no risco de câncer de mama e colorretal.
  • Efeitos no estrogênio ou outros hormônios: O álcool pode aumentar os níveis de estrogênio, um hormônio importante no crescimento e desenvolvimento do tecido mamário. Isto eleva o risco para o câncer de mama na mulher.
  • Efeitos no peso corporal: O excesso de álcool pode adicionar calorias extras à dieta, o que contribui para o ganho de peso em algumas pessoas. Estar acima do peso ou obeso é conhecido por aumentar os riscos de muitos tipos de câncer.

Junto com todos esses efeitos, o álcool ainda pode contribuir para o aparecimento do câncer de outras formas desconhecidas. (2)

Diante deste cenário, o presente estudo teve como objetivo estabelecer associações entre o consumo abusivo de álcool e a incidência de determinados tipos de câncer.

Sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL)

O sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL) faz parte das ações do Ministério da Saúde para estruturar a vigilância de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no país. Entre essas doenças incluem-se diabetes, obesidade, câncer, doenças respiratórias crônicas e cardiovasculares como hipertensão arterial, que têm grande impacto na qualidade de vida da população.

O VIGITEL tem como objetivo monitorar a frequência e a distribuição de fatores de risco e proteção para doenças crônicas não transmissíveis em todas as capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Todo ano são realizadas entrevistas telefônicas em amostras da população adulta (18 anos ou mais) residente em domicílios com linha de telefone fixo. Para os resultados serem representativos de toda a população, os números telefônicos que entrarão na pesquisa são sorteados, a partir dos cadastros de telefones existentes nas capitais do país.

Critério estabelecido pelo VIGITEL para o consumo abusivo de bebidas alcoólicas

Conforme a resposta obtida à questão “Nos últimos 30 dias, o sr. chegou a consumir cinco ou mais doses de bebida alcoólica em uma única ocasião? ”, para homens, ou “Nos últimos 30 dias, a sra. chegou a consumir quatro ou mais doses de bebida alcoólica em uma única ocasião?”, para mulheres, foi considerado consumo abusivo de bebidas alcoólicas cinco ou mais doses (homem) ou quatro ou mais doses (mulher) em uma única ocasião, pelo menos uma vez nos últimos 30 dias. Uma dose de bebida alcoólica corresponde a uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de cachaça, whisky ou qualquer outra bebida alcoólica destilada. (3)

O cálculo de adultos que consumiram bebidas alcoólicas de forma abusiva se deu da seguinte forma: número de adultos que consumiram bebida alcoólica de forma abusiva ÷ número de entrevistados. (3)

O que dizem os dados?

A frequência de consumo abusivo de bebidas alcoólicas (ingestão de quatro ou mais doses para mulheres, ou cinco ou mais doses para homens, em uma mesma ocasião dentro dos últimos 30 dias) variou entre 13,7% em Manaus e 25,7% no Distrito Federal.

As maiores frequências de consumo, entre homens, foram observadas no Distrito Federal (36,4%), Cuiabá (36,2%) e Palmas (33,2%) e, entre as mulheres, em Belo Horizonte (16,5%), no Distrito Federal (16,3%) e em Salvador (15,5%). Já as menores frequências no sexo masculino ocorreram em Manaus (19,9%), Rio Branco (21,8%) e Porto Alegre (23,2%) e, no sexo feminino, em Porto Alegre (7,3%), Manaus (8,0%) e Rio Branco e Macapá (8,6% cada).

No conjunto das 27 capitais, a frequência média do consumo abusivo de bebidas alcoólicas nos últimos 30 dias foi de 19,1%, sendo maior para os homens (27,1%) do que para as mulheres (12,2%).

A associação entre consumo de álcool e a incidência de câncer

O coeficiente de determinação, também chamado de R², é uma medida de ajustamento de um modelo estatístico linear generalizado, como a regressão linear, em relação aos valores observados. (4)

O R² varia entre 0 e 1, indicando, em percentagem, o quanto o modelo consegue explicar os valores observados. Quanto maior o R², mais explicativo é o modelo e melhor ele se ajusta à amostra. Por exemplo, se o R² de um modelo é 0,8234, isto significa que 82,34% da variável dependente consegue ser explicada pelos regressores presentes neste modelo. (4)

O consumo abusivo de álcool foi associado à taxa de incidência de diversos tipos de câncer. Os maiores valores de R2 para o sexo masculino ocorreram nas associações com câncer de cavidade oral (R²=0,0098) e Colorretal: (R²= 0,0052), e para as mulheres os maiores valores de R² ocorreram nas associações com câncer de cólon e reto (R²=0,0675) e laringe (R²=0,0479).

Estes resultados indicam que, para este modelo estatístico, o risco de haver associação entre consumo abusivo de álcool em homens e câncer de estômago é de 16,09% e para o câncer da cavidade oral é de 0,98%. Já para as mulheres, o risco de haver associação entre consumo abusivo de álcool e câncer colorretal é de 6,75% e para o câncer de mama 5,8%.

Vale ressaltar que para outros tipos de câncer, o coeficiente de determinação entre consumo abusivo de álcool e incidência da doença apresentaram valores menores (Para mulheres: Cavidade Oral: R²=0,0371; Laringe: R²= 0,0479; Estômago: R²= 0,0096; Esôfago: R²= 0,0051 e para homens: Laringe: R²=0,0072; Esôfago: R²=0,0008).

Foi possível perceber uma associação entre o consumo abusivo de álcool entre e homens e mulheres (R2= 0,33).

Segundo um estudo de Slade et al., as mulheres têm consumido quase a mesma quantidade de álcool que os homens. A análise de uma amostra de 4 milhões de pessoas, nascidas entre 1891 e 2001, apontou que os homens costumavam ser muito mais propensos a beber e ter problemas de saúde decorrente desse hábito. As novas gerações, contudo, têm diminuído essa distância com relação ao gênero: o consumo de bebidas entre mulheres se aproxima do consumo entre homens. (5)

A mudança social pode estar associada à presença de pessoas socialmente influentes em seus círculos de relacionamento, ou seja, onde existem homens consumindo álcool, podem existir mulheres consumindo a mesma quantidade. O estudo de Slade et al. alerta também que o aumento da disponibilidade da bebida no mercado e a publicidade de álcool voltada para mulheres – especialmente as mais jovens – também são fatores importantes. (5)

O câncer de cólon e reto é uma doença multifatorial influenciada por fatores genéticos, ambientais e relacionados ao estilo de vida (6,7). É evidente a ocorrência de uma transição nutricional, em todo o mundo, que afeta principalmente os países em desenvolvimento. Assim, os fatores de risco ligados ao estilo de vida são modificáveis e incluem: o consumo de bebidas alcoólicas, a baixa ingestão de frutas e vegetais, o alto consumo de carnes vermelhas e de alimentos processados, a obesidade, o tabagismo e a inatividade física. (8-12)

Iniciativa Internacional

O Plano de Ação Global da Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui nove metas globais voluntárias que visam reduzir os principais fatores causais de doenças não transmissíveis preveníveis, incluindo o câncer, em 2025. Entre as metas, está a redução em 10% do uso prejudicial do álcool. (13)

Em contraponto ao Instituto Nacional do Câncer, as recomendações alimentares da World Cancer Research Fund International (WCRF) / American Institute for Cancer Research (AICR) estipulam o limite para o consumo de bebidas alcoólicas de 2 doses por dia para homens e 1 dose por dia para mulheres. (13)

Conclusões

Segundo o Altas do Câncer, as causas de muitas neoplasias permanecem, em grande parte, desconhecidas. Apenas 5% a 20% de todos os cânceres de próstata, de cólon e reto e de mama poderiam ser prevenidos por uma dieta melhor, pelo aumento da atividade física e pela redução do consumo de álcool. (13)

O Instituto Nacional do Câncer recomenda que bebidas alcoólicas não devem ser consumidas, pois favorecem o desenvolvimento de diversos tipos de câncer. O INCA também relata: “Estudos mostram que o etanol, em quaisquer quantidades, pode causar o desenvolvimento de câncer de boca, faringe, laringe, esôfago, estômago, fígado, intestino (cólon e reto) e mama (pré- e pós-menopausa)”. (14)

A recomendação do INCA serve para todas as bebidas alcoólicas. O Instituto ainda ressalta que a combinação de álcool com tabaco aumenta a possibilidade do surgimento desse grupo de doenças. (14)

É importante destacar que há uma evidente relação dose-resposta entre o consumo de bebidas alcoólicas e o risco de câncer. Ou seja, quanto maior a dose ingerida e o tempo de exposição, maior será o risco de desenvolver os tipos de cânceres já citados pelo INCA. (14)

Do ponto de vista da saúde pública, estima-se que o álcool tenha causado cerca de meio milhão de mortes por câncer em 2012; 5,8% das mortes por câncer no mundo (14). Os maiores riscos estão associados ao maior consumo de álcool, mas uma carga considerável é sentida pelos bebedores com consumo baixo a moderado, devido à distribuição de bebida na população (15). Assim, a redução do consumo de álcool em toda a população terá um efeito importante sobre a incidência dessas condições, enquanto o direcionamento dos bebedores mais pesados por si só tem um potencial limitado. (1)

Embora os dados populacionais não demonstrem associação estatisticamente significante entre o consumo abusivo de álcool e a incidência de câncer, ressalta-se que existe vasta literatura comprovando a hipótese.

Conheça outras recomendações do Instituto Nacional do Câncer

Veja também dicas sobre como se alimentar de forma saudável, esclareça mitos e verdades, acesse publicações, legislação e uma seleção de vídeos sobre o tema.

Referências:

  1. Connor, Jennie. Alcohol consumption as a cause of cancer. Addiction. v. 112. p. 222–228. 2017.
  2. Sociedade Americana de Câncer (American Cancer Society). Alcohol use and Cancer. [website]. Disponível em: https://www.cancer.org/cancer/cancer-causes/diet-physical-activity/alcohol-use-and-cancer.html. Acesso em: jan/2019.
  3. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção da Saúde. Vigitel Brasil 2017: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2017 Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_2017_vigilancia_fatores_riscos.pdf. Acesso em jan/2019
  4. Portal Action. Coeficiente de Determinação [website]. Disponível em: http://www.portalaction.com.br/analise-de-regressao/16-coeficiente-de-determinacao. Acesso em jan/2019.
  5. Slade, Tim. et al. Birth cohort trends in the global epidemiology of alcohol use and alcohol-related harms in men and women: systematic review and metaregression. BMJ Open. 6. p. 1-12. 2016
  6. Wang, Qingbing. et al. Consumption of fruit, but not vegetables, may reduce risk of gastric cancer: results from a meta-analysis of cohort studies. European Journal of Cancer, Oxford, v. 50, n. 8, p. 1498-1509, 2014.
  7. Boyle, Peter; Leon, Maria Elena. Epidemiology of colorectal cancer. British Medical Bulletin, London, v. 64, n. 1, p. 1-25, 2002.
  8. Fedirko, Veronika. et al. Alcohol drinking and colorectal cancer risk: an overall and dose-response meta-analysis of published studies. Annals of Oncology, Dordrecht, v. 22, n. 9, p. 19581972, 2011.
  9. Harriss, David. J. et al. Lifestyle factors and colorectal cancer risk (2): a systematic review and meta-analysis of associations with leisure-time physical activity. Colorectal disease, Oxford, v. 11, n. 7, p. 689-701, 2009
  10. Walter, Violeta. Smoking and survival of colorectal cancer patients: systematic review and meta-analysis. Annals of Oncology, Dordrecht, v. 25, n. 8, p. 1517-1525, 2014.
  11. WORLD CANCER RESEARCH FUNDATION; AMERICAN INSTITUTE FOR CANCER RESEARCH. Pancreatic Cancer 2012 report: food, nutrition, physical activity, and the prevention of colorectal cancer. Washington, DC: American Institute for Cancer Research, 2012. (Continuous Update Project CUP). Disponível em: <http://www.wcrf.org/sites/default/files/Pancreatic-Cancer-2012-Report.pdf >. Acesso em: 21 set. 2017.
  12. Jemal, Ahmedin. et al. The Cancer Atlas. Second Ed. Atlanta, GA: American Cancer Society; 2014. Disponível também no endereço: www. cancer.org/canceratlas.
  13. Ministério da Saúde. Secretária de Atenção à Saúde. Instituto Nacional do Câncer. Bebidas alcoólicas [website]. Disponível em: https://www.inca.gov.br/causas-e-prevencao/prevencao-e-fatores-de-risco/bebidas-alcoolicas. Acesso em: jan/2019
  14. Praud, Delphine., et al. Cancer incidence and mortality attributable to alcohol consumption. Int J Cancer. v.138: p. 1380-7, 2016.
  15. David E., et al. Alcohol-Attributable Cancer Deaths and Years of Potential Life Lost in the United States. Sou J Saúde Pública. v.103: p. 641-8, 2013.