Tag: prevenção

O consumo abusivo de álcool e a incidência do câncer

Introdução:

O consumo de bebidas alcoólicas é comum na rotina de grande parcela da população, além de ser um hábito socialmente aceito. No entanto, o consumo contínuo do álcool, principalmente em grandes quantidades, está associado há vários problemas de saúde, dentre eles o câncer (Seitz, 2017). Diversos estudos mostram que o consumo de álcool é um fator de risco para o desenvolvimento de vários tipos de câncer, em especial, os cânceres do aparelho gastrointestinal (Vanella et al, 2019). Contudo, alguns estudos indicam que o álcool também é fator de risco para o câncer de pulmão e mama (Chen et al, 2011; Alvarez-Avellón et al, 2017; Connor, 2017).

O mecanismo pelo qual o etanol implica no aumento do risco para incidência de câncer ainda não está totalmente esclarecido. A depender do tipo de tumor, o álcool contribui de diferentes formas para o desenvolvimento do câncer. O álcool é um irritante da mucosa do organismo, em particular na boca e garganta. Esta ação irritante pode levar a lesões e, durante o processo de reparação das células danificadas, pode ocorrer alterações no DNA das células e consequentemente acarretar no desenvolvimento de um câncer. Durante seu metabolismo, o álcool é convertido em acetaldeído pelas bactérias intestinais, o acetaldeído, por sua vez, é uma substância carcinogênica (Seitz e Becker, 2007). Além disso, o metabolismo do álcool também provoca lesões no fígado, acarretando em um processo inflamatório e cicatricial que também pode levar as alterações do DNA e consequente desenvolvimento de câncer (Boffeta e Hashibe, 2006).

O álcool também atua como solvente, favorecendo a entrada de outras substâncias carcinogênicas nas células, especialmente as substâncias provenientes do tabaco (Chen, 2011). Estudos indicam que indivíduos fumantes que consomem bebidas alcoólicas apresentam um risco ainda maior para desenvolver o câncer de pulmão. No entanto, ao mesmo tempo em que o álcool facilita a entrada de substâncias, ele dificulta a absorção de vitaminas, especialmente o folato (ou ácido fólico). A deficiência de folato está associada à incidência de câncer de mama e câncer colorretal (Asante et al, 2018).

Finalmente, o álcool possui efeitos endócrinos que podem aumentar o risco para vários tipos de câncer. Estudos evidenciam que o consumo de bebidas alcoólicas está associado a níveis elevados de estrogênio, importante hormônio que regula o desenvolvimento do tecido mamário, aumentando assim o risco para câncer de mama. Além disso, o consumo de álcool está associado à obesidade, que também configura um importante fator de risco para diversos tipos de cânceres (Boffeta e Hashibe, 2006).

Diante do exposto, entender a relação entre o consumo de bebidas alcoólicas e incidência de câncer é de grande relevância para a saúde pública. Uma metodologia de estudo epidemiológico que contribui para o entendimento desta relação é o delineamento dito ecológico. O estudo ecológico permite identificar a associação entre a exposição a um possível fator de risco e a ocorrência da doença, utilizando dados coletivos de uma população, e não de cada indivíduo, obtidos em bases de dados secundários. Esta metodologia, nos permite, portanto, analisar a relação entre os hábitos de consumo de álcool de uma população e as taxas de incidência de câncer (Lima-Costa e Barreto, 2003).

No Brasil podemos obter os hábitos de consumo de bebidas alcoólicas das populações das capitais dos estados brasileiros através do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL). O VIGITEL faz parte das ações do Ministério da Saúde para estruturar a vigilância de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no país. Entre essas doenças incluem-se diabetes, obesidade, cânceres, doenças respiratórias crônicas e cardiovasculares como hipertensão arterial, que têm grande impacto na qualidade de vida da população. O VIGITEL tem como objetivo monitorar a frequência e a distribuição de fatores de risco e proteção para doenças crônicas não transmissíveis em todas as capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal (Vigitel Brasil, 2017).

As taxas de incidência dos tipos de cânceres mais frequentes na população podem ser consultadas na estimativa anual realizada pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA). As taxas de incidência das capitais dos estados brasileiros são calculadas com base nas informações de incidência dos cânceres, obtidas pelo Registro de Câncer de Base Populacional (RCBP), bem como as informações sobre a mortalidade por câncer, do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) do Departamento de Informática do SUS (DATASUS) (INCA, 2017).

Diante do exposto, o presente estudo teve como objetivo avaliar a correlação entre o consumo abusivo de álcool e a incidência de determinados tipos de cânceres nas capitais dos estados brasileiros.

Metodologia do estudo:

Realizamos um estudo ecológico para correlacionar os hábitos de consumo de bebidas alcoólicas dos habitantes das capitais brasileiras e a taxa de incidência dos cânceres de cavidade oral, de laringe, de esôfago, estômago, cólon e reto, traqueia, mama, brônquio e pulmão.

As informações sobre os hábitos de consumo de álcool dos habitantes das capitais dos estados brasileiros foram expressadas e analisadas na forma de porcentagem da população que realiza o uso abusivo de álcool, em relação ao total da população entrevistada pelo VIGITEL. O VIGITEL considera como uso abusivo o consumo de 5 doses, para homens, ou 4 doses, para mulheres, de bebida alcoólica em uma única ocasião, nos últimos 30 dias.  Uma dose de bebida alcoólica corresponde a uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de qualquer bebida destilada (Vigitel Brasil, 2017).

Foram obtidas as taxas de incidência dos cânceres de cavidade oral, de laringe, de esôfago, estômago, cólon e reto, traqueia, mama, brônquio e pulmão divulgadas pelo INCA de cada uma das capitais dos estados brasileiros. Foram utilizadas as taxas brutas de incidência do total da população, exceto para o câncer de mama, que foi utilizado a taxa bruta de incidência na população do sexo feminino (INCA, 2017).

Para correlacionar as incidências dos cânceres citados com a proporção da população que faz consumo abusivo de álcool nas capitais brasileiras, realizamos o teste de correlação de Pearson. O coeficiente de correlação de Pearson exprime o grau de relação entre duas variáveis quantitativas. O coeficiente pode assumir valores entre -1 e +1. Quanto mais próximo o valor de 1, maior é a correlação entre as variáveis. Valores do coeficiente de correlação ente 0 e 0,30 são considerados fracos, valores entre 0,31 e 0,59 são considerados moderados, valores entre 0,60 e 0,80 são considerados fortes e, finalmente, valores de correlação acima de 0,80 são considerados muito fortes (Chan, 2003). Se o sinal do coeficiente for positivo, significa que a correlação é positiva, ou seja, se a porcentagem da população que faz uso abusivo de álcool aumenta, a taxa de incidência de câncer também aumenta. Enquanto que, se o sinal for negativo, a correlação é negativa, ou seja, se a porcentagem da população que faz uso abusivo de álcool aumenta, a taxa de incidência de câncer diminui (Chan, 2003). O nível de significância adotado no teste foi de 5%.

Resultados do estudo:

A proporção da população que faz uso abusivo de álcool variou entre 23,98%, no Distrito Federal, e 12,5%, em Manaus. Além do Distrito Federal, as maiores frequências de consumo abusivo foram: Cuiabá (21,84%), Salvador (20,94%), Palmas (20,82%) e Belo Horizonte (20,36%). Dentre os cânceres analisados, o câncer de mama apresenta maior taxa de incidência, seguido pelo de cólon e reto e o de traqueia, brônquio e pulmão.

Os resultados dos testes de correlação de Pearson entre a porcentagem da população que faz uso abusivo de álcool e a taxa de incidência bruta dos cânceres estão representados na Tabela 1. Foram encontrados coeficientes de correlação positivos e fracos para as taxas de incidência dos cânceres de cavidade oral, esôfago, colón e reto e mama. O coeficiente de correlação foi negativo e moderado para a taxa do câncer de estômago e negativos e nulos para as taxas dos cânceres de laringe e traqueia, brônquios e pulmão.

No entanto, é importante destacarmos que, independentemente do coeficiente de correlação, em todos os testes, o nível de significância foi maior que 5%, indicando, portanto, que não há significância estatística nos resultados da análise. Desta forma, em nosso estudo, não evidenciamos a correlação entre a proporção da população que faz uso abusivo de álcool e taxa de incidência dos cânceres analisados.

 

Tabela 1: Resultados dos testes de correlação de Pearson entre a porcentagem da população que faz uso abusivo de álcool e a taxa de incidência bruta dos cânceres:

 

Tipo de Câncer

Coeficiente de Correlação Nível de significância

Cavidade oral

r  =  0,127

p = 0,528

Laringe r = – 0,025

p = 0,902

Esôfago r =  0,005

p = 0,980

Estômago

r = – 0,305 p = 0,122
Cólon e Reto r =  0,142

p = 0,479

Mama

r =  0,205 p = 0,305

Traqueia, Brônquios e Pulmão

r =  -0,148

p = 0,462

 

Discussão dos resultados:

Diversos estudos na literatura indicam que o consumo de álcool é um fator de risco para o desenvolvimento de câncer (Tsugane et al, 1999; Pedersen et al, 2003; Dickerman et al, 2017; Park et al, 2019). Estudos epidemiológicos estimam que o consumo de álcool, em 2012, foi responsavel por 5,8% de todas as mortes causadas por câncer, que representa aproximadamente meio milhão de mortes (Praud et al, 2016). No entanto, em nosso estudo não identificamos a associação entre a proporção da população que faz uso abusivo de álcool e a taxa de incidência de câncer. Esta discordância entres os nossos resultados e os dados da literatura podem ser explicadas, em grande parte, pelas diferenças metodológicas entre os estudos.

A grande maioria dos estudos que estabelece a causalidade entre o consumo de álcool e a incidência de câncer, avaliam o risco individual da pessoa que consome bebidas alcoólicas desenvolverem cânceres. Esta avaliação do risco individual é realizada por meio de estudos de coorte, e não estudos ecológicos, que foi a metodologia utilizada no presente estudo (Tsugane et al, 1999; Pedersen et al, 2003; Dickerman et al, 2017; Park et al, 2019). Ainda que evidenciássemos correlação entre a população que faz uso abusivo de álcool e as taxas de incidência de câncer, por se tratarem de dados populacionais, não seria possível inferir sobre o risco individual da exposição ao álcool levar ao desenvolvimento de um câncer (Lima-Costa e Barreto, 2003).

Contudo, outros estudos de natureza ecológica também evidenciaram a associação entre o consumo de bebidas alcoólicas e a incidência de câncer (Petti e Scully, 2005; Grant, 2010; Miller et al, 2018). No entanto, nestes casos há diferenças significativas na mensuração do consumo de álcool. Em nosso estudo as taxas de incidência de câncer foram correlacionadas com a proporção da população que faz o uso abusivo de álcool, de acordo com o critério estabelecido pelo VIGITEL (4 doses ou mais para as mulheres e 5 doses ou mais para os homens, em uma única ocasião nos últimos 30 dias) (Vigitel, 2017).

Em um estudo ecológico baseados em dados populacionais de diferentes países mensurou o consumo de álcool da população em litros consumidos por ano (Petti e Scully, 2005), outro estudo utilizou dados de consumo da população, obtidos por meio de questionário validado para avaliar os hábitos de consumo de álcool, no qual são informados o número de dias no mês em que foram consumidas bebidas alcoólicas (Miller et al, 2018). Desta forma, as informações sobre o consumo de bebidas alcoólicas utilizadas por estes estudos são muito mais precisas do que aquelas fornecidas pelo VIGITEL.

A representação dos hábitos de consumo de álcool da população das capitais dos estados brasileiros, sobre a forma de proporção da população que faz uso abusivo, e não sobre a quantidade de álcool de fato consumida, também impossibilita estabelecer na população a relação dose-resposta que existe entre o consumo de álcool e a incidência de câncer, tanto a nível individual, quanto a nível populacional (Park et al, 2009; Grant, 2010; Ibáñez-Sanz, 2017). Uma vez que, pelo critério estabelecido pelo VIGITEL, não é possível com exatidão o real consumo de álcool pela população das capitais dos estados brasileiros.

O critério estabelecido pelo VIGITEL, consumo de 4 doses ou mais, para mulheres, e consumo de 5 doses ou mais, para homens, em uma única ocasião nos últimos 30 dias, está muito abaixo, em número de doses, dos critérios utilizados por outros estudos que analisam a relação entre o consumo de álcool. Estudos na literatura avaliam o risco para o desenvolvimento de câncer para os padrões de consumo que põem variar de 3 doses por semana até 5 doses ao dia (Longnecker, 1990; Pedersen et al, 2003; Dickerman et al, 2016, Park et al, 2019).

Outro aspecto que deve ser considerado nesta discussão é o método utilizado pelo VIGITEL para as entrevistas. O VIGITEL realiza entrevistas telefônicas em amostras da população adulta (18 anos ou mais), residente em domicílios com linha de telefone fixo. Para os resultados serem representativos de toda a população, os números telefônicos que entram na pesquisa são sorteados, a partir dos cadastros de telefones existentes nas capitais do país (Vigitel, 2017).

No entanto, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações, em dezembro 2018, o Brasil contava com 37,5 milhões de linha de telefonia fixa e 229 milhões de linhas de telefonia móvel. A proporção de domicílios com telefonia fixa chega a 40% nos estados da região Sul e Sudeste e varia entre 10 e 30% no estado da região norte e nordeste, ao passo que a proporção da população com telefonia móvel pode chegar a 120% nos estados da região Sudeste e 90% nos estados da região Norte e Nordeste (ANATEL, 2019a; ANATEL, 2019b). Portanto, a utilização de linhas de telefonia se configura como um viés de seleção, uma vez que a maior parte da população não possui linhas de telefonia fixa e sua distribuição no país variar muito. Desta forma, os dados de consumo de álcool dos entrevistados pelo VIGITEL podem não ser representativos da totalidade da população (Lima- Costa e Barreto, 2003).

Nesta discussão, é importante destacarmos que a literatura apresenta robustas evidências, provenientes de estudos com modelos animais (Heit C et al 2015; Peter Guengerich e Avadhani, 2018), estudos epidemiológicos (Dickerman et al, 2016; Miller et al, 2018) e, inclusive, metanálises (Ma et al, 2017; Cai et al, 2018) demonstrando o potencial carcinogênico do álcool. Diante destas evidências, o etanol proveniente de bebidas alcoólicas é classificado, pela Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (International Agency for Research on Cancer- IARC), da Organização Mundial da Saúde, como substância carcinogênica para humanos (Grupo 1 da lista de agentes Classificados pela INPC) (IARC, 2019). Por esta mesma razão o INCA recomenta que nenhum tipo de bebida alcoólica seja consumido, destacando a relação dose – resposta entre o consumo de álcool e a incidência de câncer (INCA, 2019).

Conclusões do estudo:

Em nosso estudo não foram identificadas correlações entre a proporção da população que faz uso abusivo de álcool e as taxas de incidência dos cânceres de cavidade oral, de laringe, de esôfago, estômago, cólon e reto, traqueia, mama, brônquio e pulmão.

Contudo, embora nossos resultados não tenham evidenciado a relação entre o consumo de álcool e a incidência de câncer, existe uma grande quantidade de estudos em modelos animais, epidemiológicos e metanálises que estabelecem a relação de causalidade entre estas duas variáveis.

O fato de não encontramos correlações entre o consumo de álcool e a incidência de câncer, apesar dos dados na literatura, se deve a diferenças metodológicas na coleta dos dados dos hábitos de saúde e no delineamento epidemiológico do estudo.

Referências:

Agência Nacional de Telecomunicações- b. Brasil registra 229 milhões de linhas móveis em dezembro [website]. Disponível em: http://www.anatel.gov.br/dados/acessos-telefonia-movel. Acesso em fev/2019.

Agência Nacional de Telecomunicações- a. Telefonia fixa soma 37,5 milhões de linhas em dezembro de 2018 [website]. Disponível em: http://www.anatel.gov.br/dados/acessos-telefonia-fixa. Acesso em fev/2019.

Asante I, Pei H, Zhou E, Liu S, Chui D, Yoo E, Louie SG. Simultaneous quantitation of folates, flavins and B6 metabolites in human plasma by LC-MS/MS assay: Applications in colorectal cancer. J Pharm Biomed Anal. 2018;158:66-73. doi: 10.1016/j.jpba.2018.05.030.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Vigitel Brasil, 2017: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. Brasília: Ministério da Saúde, 2017.

Cai S, Li Y, Ding Y, Chen K, Jin M. Alcohol drinking and the risk of colorectal cancer death: a meta-analysis. Eur J Cancer Prev. 2014;23(6):532-9. doi: 10.1097/CEJ.0000000000000076.

Chan YH. Biostatistics 104: correlational analysis. Singapore Med J. 2003;44(12):614-9.

Dickerman BA, et al.  Alcohol intake, drinking patterns, and prostate cancer risk and mortality: A 30-year prospective cohort study of Finnish twins. Cancer Causes Control. 2016; 27(9): 1049–1058.

Grant WB. An ecological study of cancer mortality rates in the United States with respect to solar ultraviolet-B doses, smoking, alcohol consumption and urban/rural residence. Dermatoendocrinol. 2010; 2(2): 68–76.

Heit C, Dong H, Chen Y, Shah YM, Thompson DC, Vasiliou V. Transgenic mouse models for alcohol metabolism, toxicity, and cancer. Adv Exp Med Biol. 2015;815:375-87. doi: 10.1007/978-3-319-09614-8_22.

Ibáñez-Sanz G. Risk Model for Colorectal Cancer in Spanish Population Using Environmental and Genetic Factors: Results from the MCC-Spain study. Sci Rep. 2017;7:43263. doi: 10.1038/srep43263.

Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Estimativa 2018: incidência de câncer no Brasil – Rio de Janeiro: INCA, 2017.

International Agency for Research on Câncer. Agents Classified by the IARC Monographs, Volumes 1–123. 2019. Desponível em: https://monographs.iarc.fr/wp-content/uploads/2018/09/ClassificationsAlphaOrder.pdf. Acesso em: fev/2019.

Lima- Costa MF, Barreto SM. Tipos de estudos epidemiológicos: conceitos básicos e aplicações na área do envelhecimento. Epidemiol. Serv. Saúde. 2003;12(4):189:201.

Longnecker MP. A case-control study of alcoholic beverage consumption in relation to risk of cancer of the right colon and rectum in men. Cancer Caus Control. 1990; 1(1):5-14.

Ma K, Baloch Z, He TT, Xia X. Alcohol Consumption and Gastric Cancer Risk: A Meta-Analysis. Med Sci Monit. 2017;23:238-246.

Miller ER, Wilson C, Chapman J, Flight I, Nguyen AM, Fletcher C, Ramsey I. Connecting the dots between breast cancer, obesity and alcohol consumption in middle-aged women: ecological and case control studies. BMC Public Health. 2018;18(1):460. doi: 10.1186/s12889-018-5357-1.

Ministério da Saúde. Secretária de Atenção à Saúde. Instituto Nacional do Câncer. Bebidas alcoólicas [website]. Disponível em: https://www.inca.gov.br/causas-e-prevencao/prevencao-e-fatores-de-risco/bebidas-alcoolicas. Acesso em: jan/2019

Park SY, et al. Alcohol Intake and Colorectal Cancer Risk in the Multiethnic Cohort Study. Am J Epidemiol. 2019;188(1):67-76. doi: 10.1093/aje/kwy208.

Pedersen A, Johansen C, Grønbæk M. Relations between amount and type of alcohol and colon and rectal cancer in a Danish population based cohort study. Gut. 2003; 52(6): 861–867.

Peter Guengerich F, Avadhani NG. Roles of Cytochrome P450 in Metabolism of Ethanol and Carcinogens. Adv Exp Med Biol. 2018;1032:15-35. doi: 10.1007/978-3-319-98788-0_2.

Petti S, Scully C. Oral cancer: the association between nation-based alcohol-drinking profiles and oral cancer mortality. Oral Oncol. 2005;41(8):828-34.

Praud D, Rota M, Rehm J, Shield K, Zatoński W, Hashibe M, La Vecchia C, Boffetta P. Cancer incidence and mortality attributable to alcohol consumption. Int J Cancer. 2016 Mar 15;138(6):1380-7. doi: 10.1002/ijc.29890.

Seitz HK, Becker P. Alcohol metabolism and cancer risk. Alcohol Res Health. 2007;30(1):38-41, 44-7.

Seitz HK. Alcohol and cancer-individual risk factors. Addiction. 2017 ;112 (2):232-233. doi: 10.1111/add.13664.

Tsugane S,  Michael FT, Satoshi Sasaki S, Baba S. Alcohol Consumption and All-Cause and Cancer Mortality among Middle-aged Japanese Men: Seven-year Follow-up of the JPHC Study Cohort I. American Journ Epidem. 1999; 50(11): 1201–1207. https://doi.org/10.1093/oxfordjournals.aje.a009946

Detecção precoce na cidade de Salvador: Papanicolau e Colonoscopia

Objetivos e atribuições deste estudo

Preocupados com as taxas de incidência dos cânceres de Colo do Útero e de Cólon e Reto na cidade de Salvador–BA, bem como com as ações dos serviços de saúde e a conscientização populacional acerca da prevenção do câncer, o Instituto Vencer o Câncer e o Observatório de Oncologia firmaram uma parceria para conceber o presente estudo, com os seguintes objetivos e atribuições:

I. Investigar o nível de conhecimento, frequência e forma de pagamento dos exames de Papanicolau e Colonoscopia pelos residentes de Salvador (Instituto vencer o Câncer);

II. Verificar se os exames de Papanicolau e Colonoscopia, entre 2008 e 2017, estão sendo realizados por indivíduos dentro da faixa etária de rastreamento preconizada pelo INCA e OMS (Observatório de Oncologia);

III. Descrever a evolução da frequência de exames realizados no Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade de Salvador (Observatório de Oncologia).

Introdução

O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estimou que para cada ano do biênio 2018/19, na cidade de Salvador, sejam diagnosticados 240 novos casos de câncer do cólon e reto em homens e 300 em mulheres. Esses valores correspondem a um risco estimado de 17 casos novos a cada 100 mil homens e 19 casos novos para cada 100 mil mulheres. Este câncer é o terceiro mais frequente em mulheres e o segundo em homens.

Para o câncer do colo do útero, as estimativas de Salvador indicam 300 novos casos para o mesmo período, com um risco estimado de 19 novos casos para cada 100 mil mulheres, sendo a segunda neoplasia mais frequentes entre as mulheres da capital Baiana (1).

Detecção precoce é um componente essencial para o controle do câncer e tem como objetivo identificar o tumor nos estágios iniciais, quando ele pode ser efetivamente tratado e curado. A conscientização da população e dos profissionais de saúde, sobre prevenção e rastreamento do câncer, e o adequado acesso aos serviços de saúde são fundamentais para produzir um diagnóstico precoce com tratamento imediato (2).

A prevenção secundária do câncer do Colo do Útero

No Brasil, o método de rastreamento do câncer do colo do útero é o exame citopatológico (exame de Papanicolau), que deve ser oferecido às mulheres na faixa etária de 25 a 64 anos e que já tiveram atividade sexual (4). A priorização desta faixa etária como a população-alvo do Programa justifica-se por ser a de maior ocorrência das lesões de alto grau, passíveis de serem tratadas efetivamente para não evoluírem para o câncer. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a incidência deste câncer aumenta nas mulheres entre 30 e 39 anos de idade e atinge seu pico na quinta ou sexta década de vida (5).

Segundo o Instituto Vencer o Câncer, para que a estratégia de prevenção seja eficaz, a recomendação é que o Papanicolau seja feito de forma regular. A rotina recomendada para o rastreamento é a repetição anual do exame Papanicolau e após dois exames normais consecutivos realizados com um intervalo de um ano, repetir o exame a cada três anos. No caso do exame positivo a paciente deve ser acompanhada de uma forma rigorosa para eliminar a inflamação e não a deixar progredir para o câncer. As mulheres que podem vir a apresentar a doença nos próximos 10 ou 15 anos provavelmente são aquelas infectadas com o vírus HPV, e são as mulheres que não se beneficiaram da vacina atual (6).

A prevenção secundária do câncer de Cólon e Reto

Para o INCA, os tumores de Cólon e Reto podem ser detectados precocemente através de dois exames principais: pesquisa de sangue oculto nas fezes e endoscopias (colonoscopia ou retossigmoidoscopias). Esses exames devem ser realizados em pessoas com sinais e sintomas sugestivos de câncer colorretal visando seu diagnóstico precoce, ou naquelas sem sinais e sintomas (rastreamento), mas pertencentes a grupos de maior risco. A OMS preconiza o rastreamento sistemático de pessoas acima de 50 anos nos países com condições de garantir todas as etapas de cuidado ao paciente com este câncer* (7).

Segundo o Instituto Vencer o Câncer, os mais modernos aparelhos utilizados na colonoscopia (fibroscópios modernos) possibilitam não apenas o acesso visual às lesões da mucosa, mas também a retirada delas. A colonoscopia, portanto, não é um simples exame diagnóstico, é também um procedimento cirúrgico que ao retirar os pólipos é capaz de evitar o aparecimento do câncer. A prevenção através da colonoscopia não deve ser indicada aleatoriamente, mas ater-se às situações em que existe risco maior de desenvolver câncer colorretal. Aqueles que não pertencem a nenhum grupo de risco devem fazer a primeira colonoscopia entre os 50 e os 55 anos, idade em que o risco se torna significativo. Se nesse exame forem encontrados e retirados um ou mais pólipos, a colonoscopia deverá ser repetida no ano seguinte (8).

Metodologia

Em 09 de março de 2018, na cidade de Salvador, o Instituto Vencer o Câncer participou do evento Bem Estar Global, uma iniciativa de responsabilidade social da TV Globo em parceria com o Sesi que oferece serviços gratuitos de saúde e qualidade de vida para a população local. O Instituto aproveitou a ocasião para realizar um inquérito com a população atendida e entrevistou todas as pessoas que se apresentaram ao seu quiosque de atendimento.

Em paralelo, o Observatório de Oncologia realizou um levantamento de microdados do governo a partir das bases do DATASUS e avaliou a produção ambulatorial de exames de Papanicolau (códigos na tabela SUS: 02.03.01.008-6 e 02.03.01.001-9) e de colonoscopia (código na tabela SUS: 02.09.01.002-9) realizados no período entre 2008 e 2017.

Resultados e Conclusões

I. Inquérito com 138 pessoas em Salvador

O questionário foi respondido por 138 . Destes, 92% eram mulheres, 6% homens e 2% não responderam. A distribuição etária foi de: 1% com menos de 18 anos, 5% entre 18 e 28 anos, 13% entre 29 e 38 anos, 29% entre 49 e 58 anos, 29% com 59 anos e mais e 1% não respondeu.

Para as perguntas referentes ao exame Papanicolau, 130 mulheres responderam ao inquérito. Destas, 84% (n=109) conheciam o exame e 82% (n=107) já o realizou em algum momento da vida.

Das mulheres que realizaram o Papanicolau (n=107): 89% (n=95) já utilizaram o SUS, 6% (n=6) já utilizaram o plano de saúde e 2% (n=2) já utilizaram Recurso Particular para realizar o exame. A maioria delas (55%) realizou o Papanicolau há mais de um ano, 43% há menos de um ano e 2% não responderam. Em relação ao número de vezes que a mulher realizou o Papanicolau em sua trajetória de vida: 14% (n=15) realizaram uma vez, 8% (n=9) duas vezes, 8% três vezes, 32% (n=34) quatro vezes e 37% (n=40) realizam o exame todos os anos.

Para as perguntas referentes ao exame de Colonoscopia, responderam ao inquérito, entre homens e mulheres, 138 pessoas, das quais: 57% (n=79) não conheciam o exame (3 pessoas não responderam);82% (n=113) nunca realizaram o exame.

Dos 22 indivíduos que realizaram a Colonoscopia, 73% (n=16) já utilizaram o SUS, 27% (n=6) já utilizaram o plano de saúde e nenhum utilizou recurso particular para realizar o exame. A maioria deles (77%) realizou a Colonoscopia há mais de um ano, 9% há menos de um ano e 14% não responderam. Em relação ao número de vezes que o indivíduo realizou a Colonoscopia em sua trajetória de vida: 82% (n=18) realizaram uma vez, 14% (n=3) duas vezes e 5% (n=1) quatro vezes.

II e III. O que mostram os dados governamentais na cidade de Salvador?

Para o período analisado (de 2008 a 2017) foram realizados 2.735.455 exames de Papanicolau. O número absoluto de exames realizados diminuiu de forma significativa, apresentando uma queda de 69% (de 455.859 em 2008 para 140.873 em 2017). O número de exames realizados/100.0000 mulheres > 25 anos também caiu acentuadamente nesses 10 anos: em 2008 foram realizados 44.964 exames e em 2017 11.203 exames/100.000 mulheres > 25 anos**.

Das mulheres que realizaram o Papanicolau: 16% tinham entre 10 e 24 anos, 6% mais de 65 anos e 78% tinham entre 25 e 64 anos, sendo esta a faixa etária preconizada pelo INCA e OMS para o rastreamento do câncer do colo do útero. Em relação a etnia das mulheres, 18% eram negras, 5% amarelas, 3% brancas e 74% estavam sem informação.

O número de estabelecimentos onde era possível realizar o Papanicolau apresentou queda de 64% (de 28 locais em 2008 para 10 em 2017). Para o período em geral, 81% dos estabelecimentos que realizaram o exame eram da esfera de gestão municipal, 16% estadual e 3% dupla***. Para esta análise, ressalta-se o período entre 2012 para 2013, onde é possível verificar uma redução significativa de 54% (de 332.656 em 2012 para 151.828 em 2013) na realização do Papanicolau pelo SUS.

Para o mesmo período foram realizados 32.577 exames de Colonoscopia. O número de exames aumentou de forma acentuada, apresentando um crescimento de 24% (de 2.836 em 2008 para 3.509 em 2017), com uma média de 3.257 exames/ano.

Dos pacientes que realizaram a Colonoscopia: 48% eram mulheres, 28% homens e em 24% dos casos não foi exigido registro do sexo. A distribuição etária apresentou o seguinte comportamento: 25% tinham menos de 50 anos, 56% tinham 50 anos ou mais (faixa etária preconizada pelo INCA e OMS para o rastreamento sistemático do câncer colorretal) e em 19% dos casos não foi exigido registro da idade. Em relação a etnia dos pacientes, 33% eram negros, 5% amarelos, 5% brancos, 33% sem informação e em 24% não foi exigido registro da etnia.

O número de estabelecimentos de onde era possível realizar a Colonoscopia apresentou queda de 13% (9 locais em 2008 para 8 em 2017). Para o período em geral, 50% dos estabelecimentos que realizaram o exame eram da esfera de gestão estadual, 48% dupla*** e 2% municipal. Para esta análise, ressalta-se que entre 2009 e 2013 o número de colonoscopias apresentou ascensão, sendo 2013 o ano com maior realização de exames (4.847). Entretanto, no ano de 2014 apesentou evidente queda de 32%.

Conclusões

A significativa redução na quantidade de exames de rastreamento para câncer de colo de útero realizados na cidade de Salvador nos últimos 10 anos é bastante preocupante. É urgente entender se ela reflete uma real diminuição na realização de exames pelas mulheres soteropolitanas ou se houve alguma outra razão diferente dessa que explique tal queda. A realização periódica do exame de Papanicolau é peça fundamental da estratégia de prevenção do câncer de Colo de Útero, e na hipótese de acentuada queda na sua efetivação isso é um alerta para um possível aumento da sua prevalência no futuro.

A realização de colonoscopia vem crescendo nos últimos anos e, apesar de o número de indivíduos sem informação de sexo ser considerável (24%), a diferença entre os números de mulheres (48%) e homens (28%) que realizaram colonoscopia reafirma a necessidade de campanhas de informação e conscientização que promovam a saúde do homem, visto que esse é o segundo câncer mais frequente em homens.

Referências:
1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde – SAS. Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Estimativa 2018: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2017.
2. Jemal A, Vineis P, Bray F, Torre L, Forman D (Eds). The Cancer Atlas. Second Ed. Atlanta, GA: American Cancer Society; 2014. Disponível em: .
3. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde – SAS. Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Prevenção e fatores de risco. Rio de Janeiro, 2018. Disponível em: http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/cancer/site/prevencao-fatores-de-risco. Acesso em: out/2018.
4. Brasil. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Divisão de Detecção Precoce e Apoio à Organização de Rede. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero. – 2. ed. rev. atual. – Rio de Janeiro: INCA, 2016.
5. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Rastreamento (Série A: Normas e Manuais Técnicos. Cadernos de Atenção Primária n.º 29). Brasília, 2010.
6. Instituto Vencer o Câncer. Notícias. Exame de Papanicolau evita o câncer de colo de útero. São Paulo. mar/2017. Disponível em: https://www.vencerocancer.org.br/noticias-colo-uterino/exame-de-papanicolaou-evita-o-cancer-de-colo-de-utero/. Acesso em: out/2018.
7. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde – SAS. Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Tipos de câncer. Colorretal. Detecção precoce. Rio de Janeiro. 2018. Disponível em: http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/tiposdecancer/site/home/colorretal/deteccao_precoce. Acesso em: out/2018.
8. Instituto Vencer o Câncer. Tipos de câncer. Câncer de cólon e de reto. Prevenção. Colonoscopia. São Paulo. 2018. Disponível em:https://www.vencerocancer.org.br/tipos-de-cancer/cancer-de-colon-e-de-reto/cancer-colorretal-prevencao/. Acesso em: out/2018.

Notas:
* Antes dos 25 anos prevalecem as infecções por HPV e as lesões de baixo grau, que regredirão espontaneamente na maioria dos casos e, portanto, podem ser apenas acompanhadas conforme recomendações clínicas. Após os 65 anos, por outro lado, se a mulher tiver feito os exames preventivos regularmente, com resultados normais, o risco de desenvolvimento do câncer cervical é reduzido dada a sua lenta evolução.

** Para o cálculo de procedimentos para cada cem mil mulheres foi utilizada a população censitária do IBGE. Disponível em: https://censo2010.ibge.gov.br/sinopse/webservice/frm_piramide.php?ano=2010&codigo=292740&corhomem=88C2E6&cormulher=F9C189&wmaxbarra=180

*** Gestão Dupla (Gestão Municipal e Estadual): Quando o Município não é Pleno de Gestão e tem atendimento de Atenção Básica e Média/Alta Complexidade.