Tag: prevenção

O consumo abusivo de álcool e a incidência do câncer

O consumo de bebidas alcoólicas costuma ser uma coisa muito comum na rotina de vida da maioria das pessoas. A ingestão contínua do álcool desgasta o organismo e então surgem os sintomas que comprometem a disposição para as atividades diárias. Há cada vez mais evidências de pesquisas sobre a relação entre o consumo de álcool e a incidência do câncer, que por diversas vezes vêm acompanhado por mensagens pouco claras e conflitantes na mídia. (1)

De que forma o Álcool aumenta o Risco de Câncer?

Segundo a Sociedade Americana de Câncer (2), a forma exata de como o álcool aumenta o risco de câncer não é totalmente conhecida. De fato, pode-se ter várias maneiras diferentes que elevam o risco de câncer, e isto pode depender do tipo de câncer. As alterações que o álcool promove que aumentam o risco de câncer são:

  • Danos aos tecidos do corpo: O álcool pode atuar como um irritante, especialmente na boca e na garganta. As células danificadas podem tentar se reparar, o que pode levar a alterações do DNA das células, o que pode eventualmente terminar no desenvolvimento de um câncer. Bactérias que normalmente vivem no cólon e no reto podem converter o álcool em grandes quantidades de acetaldeído, uma substância química que tem demonstrado causar câncer em animais de laboratório. O álcool e seus subprodutos também tendem a danificar o fígado, levando à inflamação e cicatrizes. Como as células do fígado tentam reparar os danos, elas podem se modificar com erros no DNA, resultando no câncer.
  • Efeitos sobre outros produtos químicos nocivos: O álcool pode ajudar outras substâncias químicas nocivas, como as do fumo do tabaco, a penetrar mais facilmente nas células que revestem o trato digestivo superior. Isso explica por que a combinação de fumar e beber tem maior probabilidade de causar câncer de boca ou garganta, quando comparado a apenas fumar ou beber. Em outros casos, o álcool pode diminuir a capacidade do organismo reparar o dano causado por estas substâncias químicas nocivas.
  • Efeito na absorção de folato ou outros nutrientes: O folato (ou ácido fólico) é uma vitamina que as células do corpo precisam para se manter saudáveis. O álcool pode afetar a capacidade do organismo de absorver alguns nutrientes, como o folato. Assim, a falta de ácido fólico pode ser mais grave em alcoólatras, tanto por problema de absorção quanto por falta de folato na dieta. Os baixos níveis do ácido fólico podem desempenhar um papel importante no risco de câncer de mama e colorretal.
  • Efeitos no estrogênio ou outros hormônios: O álcool pode aumentar os níveis de estrogênio, um hormônio importante no crescimento e desenvolvimento do tecido mamário. Isto eleva o risco para o câncer de mama na mulher.
  • Efeitos no peso corporal: O excesso de álcool pode adicionar calorias extras à dieta, o que contribui para o ganho de peso em algumas pessoas. Estar acima do peso ou obeso é conhecido por aumentar os riscos de muitos tipos de câncer.

Junto com todos esses efeitos, o álcool ainda pode contribuir para o aparecimento do câncer de outras formas desconhecidas. (2)

Diante deste cenário, o presente estudo teve como objetivo estabelecer associações entre o consumo abusivo de álcool e a incidência de determinados tipos de câncer.

Sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL)

O sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL) faz parte das ações do Ministério da Saúde para estruturar a vigilância de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no país. Entre essas doenças incluem-se diabetes, obesidade, câncer, doenças respiratórias crônicas e cardiovasculares como hipertensão arterial, que têm grande impacto na qualidade de vida da população.

O VIGITEL tem como objetivo monitorar a frequência e a distribuição de fatores de risco e proteção para doenças crônicas não transmissíveis em todas as capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal. Todo ano são realizadas entrevistas telefônicas em amostras da população adulta (18 anos ou mais) residente em domicílios com linha de telefone fixo. Para os resultados serem representativos de toda a população, os números telefônicos que entrarão na pesquisa são sorteados, a partir dos cadastros de telefones existentes nas capitais do país.

Critério estabelecido pelo VIGITEL para o consumo abusivo de bebidas alcoólicas

Conforme a resposta obtida à questão “Nos últimos 30 dias, o sr. chegou a consumir cinco ou mais doses de bebida alcoólica em uma única ocasião? ”, para homens, ou “Nos últimos 30 dias, a sra. chegou a consumir quatro ou mais doses de bebida alcoólica em uma única ocasião?”, para mulheres, foi considerado consumo abusivo de bebidas alcoólicas cinco ou mais doses (homem) ou quatro ou mais doses (mulher) em uma única ocasião, pelo menos uma vez nos últimos 30 dias. Uma dose de bebida alcoólica corresponde a uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de cachaça, whisky ou qualquer outra bebida alcoólica destilada. (3)

O cálculo de adultos que consumiram bebidas alcoólicas de forma abusiva se deu da seguinte forma: número de adultos que consumiram bebida alcoólica de forma abusiva ÷ número de entrevistados. (3)

O que dizem os dados?

A frequência de consumo abusivo de bebidas alcoólicas (ingestão de quatro ou mais doses para mulheres, ou cinco ou mais doses para homens, em uma mesma ocasião dentro dos últimos 30 dias) variou entre 13,7% em Manaus e 25,7% no Distrito Federal.

As maiores frequências de consumo, entre homens, foram observadas no Distrito Federal (36,4%), Cuiabá (36,2%) e Palmas (33,2%) e, entre as mulheres, em Belo Horizonte (16,5%), no Distrito Federal (16,3%) e em Salvador (15,5%). Já as menores frequências no sexo masculino ocorreram em Manaus (19,9%), Rio Branco (21,8%) e Porto Alegre (23,2%) e, no sexo feminino, em Porto Alegre (7,3%), Manaus (8,0%) e Rio Branco e Macapá (8,6% cada).

No conjunto das 27 capitais, a frequência média do consumo abusivo de bebidas alcoólicas nos últimos 30 dias foi de 19,1%, sendo maior para os homens (27,1%) do que para as mulheres (12,2%).

A associação entre consumo de álcool e a incidência de câncer

O coeficiente de determinação, também chamado de R², é uma medida de ajustamento de um modelo estatístico linear generalizado, como a regressão linear, em relação aos valores observados. (4)

O R² varia entre 0 e 1, indicando, em percentagem, o quanto o modelo consegue explicar os valores observados. Quanto maior o R², mais explicativo é o modelo e melhor ele se ajusta à amostra. Por exemplo, se o R² de um modelo é 0,8234, isto significa que 82,34% da variável dependente consegue ser explicada pelos regressores presentes neste modelo. (4)

O consumo abusivo de álcool foi associado à taxa de incidência de diversos tipos de câncer. Os maiores valores de R2 para o sexo masculino ocorreram nas associações com câncer de cavidade oral (R²=0,0098) e Colorretal: (R²= 0,0052), e para as mulheres os maiores valores de R² ocorreram nas associações com câncer de cólon e reto (R²=0,0675) e laringe (R²=0,0479).

Estes resultados indicam que, para este modelo estatístico, o risco de haver associação entre consumo abusivo de álcool em homens e câncer de estômago é de 16,09% e para o câncer da cavidade oral é de 0,98%. Já para as mulheres, o risco de haver associação entre consumo abusivo de álcool e câncer colorretal é de 6,75% e para o câncer de mama 5,8%.

Vale ressaltar que para outros tipos de câncer, o coeficiente de determinação entre consumo abusivo de álcool e incidência da doença apresentaram valores menores (Para mulheres: Cavidade Oral: R²=0,0371; Laringe: R²= 0,0479; Estômago: R²= 0,0096; Esôfago: R²= 0,0051 e para homens: Laringe: R²=0,0072; Esôfago: R²=0,0008).

Foi possível perceber uma associação entre o consumo abusivo de álcool entre e homens e mulheres (R2= 0,33).

Segundo um estudo de Slade et al., as mulheres têm consumido quase a mesma quantidade de álcool que os homens. A análise de uma amostra de 4 milhões de pessoas, nascidas entre 1891 e 2001, apontou que os homens costumavam ser muito mais propensos a beber e ter problemas de saúde decorrente desse hábito. As novas gerações, contudo, têm diminuído essa distância com relação ao gênero: o consumo de bebidas entre mulheres se aproxima do consumo entre homens. (5)

A mudança social pode estar associada à presença de pessoas socialmente influentes em seus círculos de relacionamento, ou seja, onde existem homens consumindo álcool, podem existir mulheres consumindo a mesma quantidade. O estudo de Slade et al. alerta também que o aumento da disponibilidade da bebida no mercado e a publicidade de álcool voltada para mulheres – especialmente as mais jovens – também são fatores importantes. (5)

O câncer de cólon e reto é uma doença multifatorial influenciada por fatores genéticos, ambientais e relacionados ao estilo de vida (6,7). É evidente a ocorrência de uma transição nutricional, em todo o mundo, que afeta principalmente os países em desenvolvimento. Assim, os fatores de risco ligados ao estilo de vida são modificáveis e incluem: o consumo de bebidas alcoólicas, a baixa ingestão de frutas e vegetais, o alto consumo de carnes vermelhas e de alimentos processados, a obesidade, o tabagismo e a inatividade física. (8-12)

Iniciativa Internacional

O Plano de Ação Global da Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui nove metas globais voluntárias que visam reduzir os principais fatores causais de doenças não transmissíveis preveníveis, incluindo o câncer, em 2025. Entre as metas, está a redução em 10% do uso prejudicial do álcool. (13)

Em contraponto ao Instituto Nacional do Câncer, as recomendações alimentares da World Cancer Research Fund International (WCRF) / American Institute for Cancer Research (AICR) estipulam o limite para o consumo de bebidas alcoólicas de 2 doses por dia para homens e 1 dose por dia para mulheres. (13)

Conclusões

Segundo o Altas do Câncer, as causas de muitas neoplasias permanecem, em grande parte, desconhecidas. Apenas 5% a 20% de todos os cânceres de próstata, de cólon e reto e de mama poderiam ser prevenidos por uma dieta melhor, pelo aumento da atividade física e pela redução do consumo de álcool. (13)

O Instituto Nacional do Câncer recomenda que bebidas alcoólicas não devem ser consumidas, pois favorecem o desenvolvimento de diversos tipos de câncer. O INCA também relata: “Estudos mostram que o etanol, em quaisquer quantidades, pode causar o desenvolvimento de câncer de boca, faringe, laringe, esôfago, estômago, fígado, intestino (cólon e reto) e mama (pré- e pós-menopausa)”. (14)

A recomendação do INCA serve para todas as bebidas alcoólicas. O Instituto ainda ressalta que a combinação de álcool com tabaco aumenta a possibilidade do surgimento desse grupo de doenças. (14)

É importante destacar que há uma evidente relação dose-resposta entre o consumo de bebidas alcoólicas e o risco de câncer. Ou seja, quanto maior a dose ingerida e o tempo de exposição, maior será o risco de desenvolver os tipos de cânceres já citados pelo INCA. (14)

Do ponto de vista da saúde pública, estima-se que o álcool tenha causado cerca de meio milhão de mortes por câncer em 2012; 5,8% das mortes por câncer no mundo (14). Os maiores riscos estão associados ao maior consumo de álcool, mas uma carga considerável é sentida pelos bebedores com consumo baixo a moderado, devido à distribuição de bebida na população (15). Assim, a redução do consumo de álcool em toda a população terá um efeito importante sobre a incidência dessas condições, enquanto o direcionamento dos bebedores mais pesados por si só tem um potencial limitado. (1)

Embora os dados populacionais não demonstrem associação estatisticamente significante entre o consumo abusivo de álcool e a incidência de câncer, ressalta-se que existe vasta literatura comprovando a hipótese.

Conheça outras recomendações do Instituto Nacional do Câncer

Veja também dicas sobre como se alimentar de forma saudável, esclareça mitos e verdades, acesse publicações, legislação e uma seleção de vídeos sobre o tema.

Referências:

  1. Connor, Jennie. Alcohol consumption as a cause of cancer. Addiction. v. 112. p. 222–228. 2017.
  2. Sociedade Americana de Câncer (American Cancer Society). Alcohol use and Cancer. [website]. Disponível em: https://www.cancer.org/cancer/cancer-causes/diet-physical-activity/alcohol-use-and-cancer.html. Acesso em: jan/2019.
  3. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção da Saúde. Vigitel Brasil 2017: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2017 Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_2017_vigilancia_fatores_riscos.pdf. Acesso em jan/2019
  4. Portal Action. Coeficiente de Determinação [website]. Disponível em: http://www.portalaction.com.br/analise-de-regressao/16-coeficiente-de-determinacao. Acesso em jan/2019.
  5. Slade, Tim. et al. Birth cohort trends in the global epidemiology of alcohol use and alcohol-related harms in men and women: systematic review and metaregression. BMJ Open. 6. p. 1-12. 2016
  6. Wang, Qingbing. et al. Consumption of fruit, but not vegetables, may reduce risk of gastric cancer: results from a meta-analysis of cohort studies. European Journal of Cancer, Oxford, v. 50, n. 8, p. 1498-1509, 2014.
  7. Boyle, Peter; Leon, Maria Elena. Epidemiology of colorectal cancer. British Medical Bulletin, London, v. 64, n. 1, p. 1-25, 2002.
  8. Fedirko, Veronika. et al. Alcohol drinking and colorectal cancer risk: an overall and dose-response meta-analysis of published studies. Annals of Oncology, Dordrecht, v. 22, n. 9, p. 19581972, 2011.
  9. Harriss, David. J. et al. Lifestyle factors and colorectal cancer risk (2): a systematic review and meta-analysis of associations with leisure-time physical activity. Colorectal disease, Oxford, v. 11, n. 7, p. 689-701, 2009
  10. Walter, Violeta. Smoking and survival of colorectal cancer patients: systematic review and meta-analysis. Annals of Oncology, Dordrecht, v. 25, n. 8, p. 1517-1525, 2014.
  11. WORLD CANCER RESEARCH FUNDATION; AMERICAN INSTITUTE FOR CANCER RESEARCH. Pancreatic Cancer 2012 report: food, nutrition, physical activity, and the prevention of colorectal cancer. Washington, DC: American Institute for Cancer Research, 2012. (Continuous Update Project CUP). Disponível em: <http://www.wcrf.org/sites/default/files/Pancreatic-Cancer-2012-Report.pdf >. Acesso em: 21 set. 2017.
  12. Jemal, Ahmedin. et al. The Cancer Atlas. Second Ed. Atlanta, GA: American Cancer Society; 2014. Disponível também no endereço: www. cancer.org/canceratlas.
  13. Ministério da Saúde. Secretária de Atenção à Saúde. Instituto Nacional do Câncer. Bebidas alcoólicas [website]. Disponível em: https://www.inca.gov.br/causas-e-prevencao/prevencao-e-fatores-de-risco/bebidas-alcoolicas. Acesso em: jan/2019
  14. Praud, Delphine., et al. Cancer incidence and mortality attributable to alcohol consumption. Int J Cancer. v.138: p. 1380-7, 2016.
  15. David E., et al. Alcohol-Attributable Cancer Deaths and Years of Potential Life Lost in the United States. Sou J Saúde Pública. v.103: p. 641-8, 2013.

Detecção precoce na cidade de Salvador: Papanicolau e Colonoscopia

Objetivos e atribuições deste estudo

Preocupados com as taxas de incidência dos cânceres de Colo do Útero e de Cólon e Reto na cidade de Salvador–BA, bem como com as ações dos serviços de saúde e a conscientização populacional acerca da prevenção do câncer, o Instituto Vencer o Câncer e o Observatório de Oncologia firmaram uma parceria para conceber o presente estudo, com os seguintes objetivos e atribuições:

I. Investigar o nível de conhecimento, frequência e forma de pagamento dos exames de Papanicolau e Colonoscopia pelos residentes de Salvador (Instituto vencer o Câncer);

II. Verificar se os exames de Papanicolau e Colonoscopia, entre 2008 e 2017, estão sendo realizados por indivíduos dentro da faixa etária de rastreamento preconizada pelo INCA e OMS (Observatório de Oncologia);

III. Descrever a evolução da frequência de exames realizados no Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade de Salvador (Observatório de Oncologia).

Introdução

O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estimou que para cada ano do biênio 2018/19, na cidade de Salvador, sejam diagnosticados 240 novos casos de câncer do cólon e reto em homens e 300 em mulheres. Esses valores correspondem a um risco estimado de 17 casos novos a cada 100 mil homens e 19 casos novos para cada 100 mil mulheres. Este câncer é o terceiro mais frequente em mulheres e o segundo em homens.

Para o câncer do colo do útero, as estimativas de Salvador indicam 300 novos casos para o mesmo período, com um risco estimado de 19 novos casos para cada 100 mil mulheres, sendo a segunda neoplasia mais frequentes entre as mulheres da capital Baiana (1).

Detecção precoce é um componente essencial para o controle do câncer e tem como objetivo identificar o tumor nos estágios iniciais, quando ele pode ser efetivamente tratado e curado. A conscientização da população e dos profissionais de saúde, sobre prevenção e rastreamento do câncer, e o adequado acesso aos serviços de saúde são fundamentais para produzir um diagnóstico precoce com tratamento imediato (2).

A prevenção secundária do câncer do Colo do Útero

No Brasil, o método de rastreamento do câncer do colo do útero é o exame citopatológico (exame de Papanicolau), que deve ser oferecido às mulheres na faixa etária de 25 a 64 anos e que já tiveram atividade sexual (4). A priorização desta faixa etária como a população-alvo do Programa justifica-se por ser a de maior ocorrência das lesões de alto grau, passíveis de serem tratadas efetivamente para não evoluírem para o câncer. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a incidência deste câncer aumenta nas mulheres entre 30 e 39 anos de idade e atinge seu pico na quinta ou sexta década de vida (5).

Segundo o Instituto Vencer o Câncer, para que a estratégia de prevenção seja eficaz, a recomendação é que o Papanicolau seja feito de forma regular. A rotina recomendada para o rastreamento é a repetição anual do exame Papanicolau e após dois exames normais consecutivos realizados com um intervalo de um ano, repetir o exame a cada três anos. No caso do exame positivo a paciente deve ser acompanhada de uma forma rigorosa para eliminar a inflamação e não a deixar progredir para o câncer. As mulheres que podem vir a apresentar a doença nos próximos 10 ou 15 anos provavelmente são aquelas infectadas com o vírus HPV, e são as mulheres que não se beneficiaram da vacina atual (6).

A prevenção secundária do câncer de Cólon e Reto

Para o INCA, os tumores de Cólon e Reto podem ser detectados precocemente através de dois exames principais: pesquisa de sangue oculto nas fezes e endoscopias (colonoscopia ou retossigmoidoscopias). Esses exames devem ser realizados em pessoas com sinais e sintomas sugestivos de câncer colorretal visando seu diagnóstico precoce, ou naquelas sem sinais e sintomas (rastreamento), mas pertencentes a grupos de maior risco. A OMS preconiza o rastreamento sistemático de pessoas acima de 50 anos nos países com condições de garantir todas as etapas de cuidado ao paciente com este câncer* (7).

Segundo o Instituto Vencer o Câncer, os mais modernos aparelhos utilizados na colonoscopia (fibroscópios modernos) possibilitam não apenas o acesso visual às lesões da mucosa, mas também a retirada delas. A colonoscopia, portanto, não é um simples exame diagnóstico, é também um procedimento cirúrgico que ao retirar os pólipos é capaz de evitar o aparecimento do câncer. A prevenção através da colonoscopia não deve ser indicada aleatoriamente, mas ater-se às situações em que existe risco maior de desenvolver câncer colorretal. Aqueles que não pertencem a nenhum grupo de risco devem fazer a primeira colonoscopia entre os 50 e os 55 anos, idade em que o risco se torna significativo. Se nesse exame forem encontrados e retirados um ou mais pólipos, a colonoscopia deverá ser repetida no ano seguinte (8).

Metodologia

Em 09 de março de 2018, na cidade de Salvador, o Instituto Vencer o Câncer participou do evento Bem Estar Global, uma iniciativa de responsabilidade social da TV Globo em parceria com o Sesi que oferece serviços gratuitos de saúde e qualidade de vida para a população local. O Instituto aproveitou a ocasião para realizar um inquérito com a população atendida e entrevistou todas as pessoas que se apresentaram ao seu quiosque de atendimento.

Em paralelo, o Observatório de Oncologia realizou um levantamento de microdados do governo a partir das bases do DATASUS e avaliou a produção ambulatorial de exames de Papanicolau (códigos na tabela SUS: 02.03.01.008-6 e 02.03.01.001-9) e de colonoscopia (código na tabela SUS: 02.09.01.002-9) realizados no período entre 2008 e 2017.

Resultados e Conclusões

I. Inquérito com 138 pessoas em Salvador

O questionário foi respondido por 138 . Destes, 92% eram mulheres, 6% homens e 2% não responderam. A distribuição etária foi de: 1% com menos de 18 anos, 5% entre 18 e 28 anos, 13% entre 29 e 38 anos, 29% entre 49 e 58 anos, 29% com 59 anos e mais e 1% não respondeu.

Para as perguntas referentes ao exame Papanicolau, 130 mulheres responderam ao inquérito. Destas, 84% (n=109) conheciam o exame e 82% (n=107) já o realizou em algum momento da vida.

Das mulheres que realizaram o Papanicolau (n=107): 89% (n=95) já utilizaram o SUS, 6% (n=6) já utilizaram o plano de saúde e 2% (n=2) já utilizaram Recurso Particular para realizar o exame. A maioria delas (55%) realizou o Papanicolau há mais de um ano, 43% há menos de um ano e 2% não responderam. Em relação ao número de vezes que a mulher realizou o Papanicolau em sua trajetória de vida: 14% (n=15) realizaram uma vez, 8% (n=9) duas vezes, 8% três vezes, 32% (n=34) quatro vezes e 37% (n=40) realizam o exame todos os anos.

Para as perguntas referentes ao exame de Colonoscopia, responderam ao inquérito, entre homens e mulheres, 138 pessoas, das quais: 57% (n=79) não conheciam o exame (3 pessoas não responderam);82% (n=113) nunca realizaram o exame.

Dos 22 indivíduos que realizaram a Colonoscopia, 73% (n=16) já utilizaram o SUS, 27% (n=6) já utilizaram o plano de saúde e nenhum utilizou recurso particular para realizar o exame. A maioria deles (77%) realizou a Colonoscopia há mais de um ano, 9% há menos de um ano e 14% não responderam. Em relação ao número de vezes que o indivíduo realizou a Colonoscopia em sua trajetória de vida: 82% (n=18) realizaram uma vez, 14% (n=3) duas vezes e 5% (n=1) quatro vezes.

II e III. O que mostram os dados governamentais na cidade de Salvador?

Para o período analisado (de 2008 a 2017) foram realizados 2.735.455 exames de Papanicolau. O número absoluto de exames realizados diminuiu de forma significativa, apresentando uma queda de 69% (de 455.859 em 2008 para 140.873 em 2017). O número de exames realizados/100.0000 mulheres > 25 anos também caiu acentuadamente nesses 10 anos: em 2008 foram realizados 44.964 exames e em 2017 11.203 exames/100.000 mulheres > 25 anos**.

Das mulheres que realizaram o Papanicolau: 16% tinham entre 10 e 24 anos, 6% mais de 65 anos e 78% tinham entre 25 e 64 anos, sendo esta a faixa etária preconizada pelo INCA e OMS para o rastreamento do câncer do colo do útero. Em relação a etnia das mulheres, 18% eram negras, 5% amarelas, 3% brancas e 74% estavam sem informação.

O número de estabelecimentos onde era possível realizar o Papanicolau apresentou queda de 64% (de 28 locais em 2008 para 10 em 2017). Para o período em geral, 81% dos estabelecimentos que realizaram o exame eram da esfera de gestão municipal, 16% estadual e 3% dupla***. Para esta análise, ressalta-se o período entre 2012 para 2013, onde é possível verificar uma redução significativa de 54% (de 332.656 em 2012 para 151.828 em 2013) na realização do Papanicolau pelo SUS.

Para o mesmo período foram realizados 32.577 exames de Colonoscopia. O número de exames aumentou de forma acentuada, apresentando um crescimento de 24% (de 2.836 em 2008 para 3.509 em 2017), com uma média de 3.257 exames/ano.

Dos pacientes que realizaram a Colonoscopia: 48% eram mulheres, 28% homens e em 24% dos casos não foi exigido registro do sexo. A distribuição etária apresentou o seguinte comportamento: 25% tinham menos de 50 anos, 56% tinham 50 anos ou mais (faixa etária preconizada pelo INCA e OMS para o rastreamento sistemático do câncer colorretal) e em 19% dos casos não foi exigido registro da idade. Em relação a etnia dos pacientes, 33% eram negros, 5% amarelos, 5% brancos, 33% sem informação e em 24% não foi exigido registro da etnia.

O número de estabelecimentos de onde era possível realizar a Colonoscopia apresentou queda de 13% (9 locais em 2008 para 8 em 2017). Para o período em geral, 50% dos estabelecimentos que realizaram o exame eram da esfera de gestão estadual, 48% dupla*** e 2% municipal. Para esta análise, ressalta-se que entre 2009 e 2013 o número de colonoscopias apresentou ascensão, sendo 2013 o ano com maior realização de exames (4.847). Entretanto, no ano de 2014 apesentou evidente queda de 32%.

Conclusões

A significativa redução na quantidade de exames de rastreamento para câncer de colo de útero realizados na cidade de Salvador nos últimos 10 anos é bastante preocupante. É urgente entender se ela reflete uma real diminuição na realização de exames pelas mulheres soteropolitanas ou se houve alguma outra razão diferente dessa que explique tal queda. A realização periódica do exame de Papanicolau é peça fundamental da estratégia de prevenção do câncer de Colo de Útero, e na hipótese de acentuada queda na sua efetivação isso é um alerta para um possível aumento da sua prevalência no futuro.

A realização de colonoscopia vem crescendo nos últimos anos e, apesar de o número de indivíduos sem informação de sexo ser considerável (24%), a diferença entre os números de mulheres (48%) e homens (28%) que realizaram colonoscopia reafirma a necessidade de campanhas de informação e conscientização que promovam a saúde do homem, visto que esse é o segundo câncer mais frequente em homens.

Referências:
1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde – SAS. Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Estimativa 2018: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2017.
2. Jemal A, Vineis P, Bray F, Torre L, Forman D (Eds). The Cancer Atlas. Second Ed. Atlanta, GA: American Cancer Society; 2014. Disponível em: .
3. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde – SAS. Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Prevenção e fatores de risco. Rio de Janeiro, 2018. Disponível em: http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/cancer/site/prevencao-fatores-de-risco. Acesso em: out/2018.
4. Brasil. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Divisão de Detecção Precoce e Apoio à Organização de Rede. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero. – 2. ed. rev. atual. – Rio de Janeiro: INCA, 2016.
5. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Rastreamento (Série A: Normas e Manuais Técnicos. Cadernos de Atenção Primária n.º 29). Brasília, 2010.
6. Instituto Vencer o Câncer. Notícias. Exame de Papanicolau evita o câncer de colo de útero. São Paulo. mar/2017. Disponível em: https://www.vencerocancer.org.br/noticias-colo-uterino/exame-de-papanicolaou-evita-o-cancer-de-colo-de-utero/. Acesso em: out/2018.
7. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde – SAS. Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. Tipos de câncer. Colorretal. Detecção precoce. Rio de Janeiro. 2018. Disponível em: http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/tiposdecancer/site/home/colorretal/deteccao_precoce. Acesso em: out/2018.
8. Instituto Vencer o Câncer. Tipos de câncer. Câncer de cólon e de reto. Prevenção. Colonoscopia. São Paulo. 2018. Disponível em:https://www.vencerocancer.org.br/tipos-de-cancer/cancer-de-colon-e-de-reto/cancer-colorretal-prevencao/. Acesso em: out/2018.

Notas:
* Antes dos 25 anos prevalecem as infecções por HPV e as lesões de baixo grau, que regredirão espontaneamente na maioria dos casos e, portanto, podem ser apenas acompanhadas conforme recomendações clínicas. Após os 65 anos, por outro lado, se a mulher tiver feito os exames preventivos regularmente, com resultados normais, o risco de desenvolvimento do câncer cervical é reduzido dada a sua lenta evolução.

** Para o cálculo de procedimentos para cada cem mil mulheres foi utilizada a população censitária do IBGE. Disponível em: https://censo2010.ibge.gov.br/sinopse/webservice/frm_piramide.php?ano=2010&codigo=292740&corhomem=88C2E6&cormulher=F9C189&wmaxbarra=180

*** Gestão Dupla (Gestão Municipal e Estadual): Quando o Município não é Pleno de Gestão e tem atendimento de Atenção Básica e Média/Alta Complexidade.